O deputado Marcelo Nilo decretou luto oficial de três dias da Assembleia Legislativa em reverência à memória do ex-deputado Ênio Mendes, falecido na madrugada de ontem, e que teve o corpo velado no Salão Nobre da Casa. Foi intensa a presença suprapartidária de deputados estaduais, ex-deputados, secretários de Estado do Governo e do Município, conselheiros das cortes de Contas e outras autoridades no local. O luto do poder Legislativo está expresso no hasteamento da bandeira da Bahia a meio pau.
Ênio Mendes estava hospitalizado há alguns dias com problemas cardíacos. Ele tinha 83 anos. O corpo deixará o Legislativo no início da manhã de hoje e será cremado às 10h, no Cemitério Jardim da Saudade, em Brotas. Uma missa de corpo presente acontecerá na capela do cemitério às 9h30, devendo reunir familiares, amigos, correligionários e admiradores.
VELÓRIO
Cerca de três centenas de pessoas consternadas foram se solidarizar com os familiares de Ênio Mendes, a viúva Lígia, e os filhos Aurélio, Raquel, Ênio, Ana Clara e Luciana. Um dos mais abalados foi o ex-governador Waldir Pires, seu amigo pessoal e ex-companheiro de trabalho, pois o ex-deputado, que era advogado e pecuarista, foi secretário da Segurança Pública em sua gestão como governador da Bahia.
Surpreendido pelo falecimento quando estava no interior em compromisso previamente agendado, Marcelo Nilo antecipou o seu retorno a Salvador e compareceu à noite ao Legislativo se somando àqueles que lamentavam o desaparecimento de "um homem de bem". Para ele, a saga vivida por Ênio Mendes quando foi impossibilitado pelo arbítrio de exercer o seu segundo mandato como deputado estadual, cassado que foi em 1964, foi muito triste, mas pode ser considerada hoje como pedagógica.
Lembrar daqueles tempos sombrios, ressalta Marcelo Nilo, reativa na memória de quem viveu aquele período lembranças sobre o quão nefasto pode ser um regime de força (de qualquer coloração partidária), mas serve para instruir as novas gerações sobre o valor das liberdades democráticas que o país – e a Bahia em especial – vive no atual momento com a administração republicana do governador Jaques Wagner. Marcelo Nilo conviveu com Ênio Mendes no governo Waldir Pires quando ocupava a presidência da Embasa.
O ex-governador Waldir Pires lamentou a morte de Ênio Mendes e destacou o de-sempenho que teve à frente da pasta. "Era um homem cumpridor dos seus objetivos. Fez uma administração decente e séria. Guardarei boas recordações dele", afirmou. Os dois foram colegas de faculdade. Para Waldir, Ênio se destacou pela militância política e pelo enfrentamento da ditadura militar. "Ele tinha uma notável força de cidadania. Era sério e honrado. É com muita tristeza que recebo a notícia do seu desaparecimento."
MILITÂNCIA
Figura destacada da esquerda baiana, Ênio Mendes foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano (PR), entre 1959 e 1963 e reeleito pelo Partido Social Progressista (PSP) para os mandatos de 1963 a 1967. No entanto, com o advento do regime militar, teve seu mandato cassado no dia 28 de abril de 1964 e teve os seus direitos políticos suspensos em agosto de 1966 – interrompendo a sua trajetória política.
O drama maior vivido por ele, por seus familiares, amigos e pela classe política baiana naquela época se deveu ao fato de que a sua cassação não foi executada pela Presidência da República a partir de ato do presidente Castelo Branco, como previa o rito de então. A determinação teve origem militar, mas foi obtida por seus algozes através de processo aberto no Legislativo, colocado sob a eminência de fechamento e outras violências.
No exercício do mandato no parlamento estadual, Ênio teve uma atuação de destaque, participando das comissões de Finanças, Orçamento e Contas (1959), Viação e Obras Públicas (1959), Orçamento e Fiscalização Financeira (1961), Constituição e Justiça (1963) e Finanças e Serviços Públicos (1963), dentre outras. Ele só assumiu a Secretaria da Segurança Pública da Bahia após a redemocratização do país.
Diplomado em Direito pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), em 1959, Ênio Mendes iniciou a vida política ainda no movimento estudantil: foi presidente do Centro Acadêmico Ruy Barbosa e Grêmio Barão do Rio Branco, além de membro da União Nacional dos Estudantes (UNE).
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