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Assembleia concede cidadania baiana ao bispo André Witte

Publicado em: 12/08/2011 00:00
Editoria: Diário Oficial

O deputado Bira Corôa e o conselheiro Zilton Rocha entregaram a honraria ao homenageado
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O ex-deputado Zilton Rocha voltou ontem ao plenário da Assembleia Legislativa para participar da sessão especial em que foi concedido o título de cidadão baiano ao bispo de Ruy Barbosa, D. André Witte. Foi dele a iniciativa de propor a condecoração do religioso belga, ainda em 2007, no último ato como parlamentar, antes de deixar o mandato para ocupar a função de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

A sessão reuniu muitas pessoas do povo, representantes das comunidades de Juazeiro, Alagoinhas, Macajuba e municípios da diocese Ruy Barbosa, gente que aprendeu a admirar o trabalho pastoral que dom André desenvolve na Bahia, desde 1976. O bispo de Feira de Santana, dom Itamar Vian, e a presidente do TCE, Ridalva Figueiredo, também compareceram. Requerida e presidida pelo deputado Bira Corôa (PT), a sessão se constituiu por uma sucessão de quebras de protocolo. A primeira foi anunciada logo no início, quando Bira concedeu a Zilton o direito de fazer a saudação ao homenageado.

 

SENTIMENTO

 

"Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento", disse Zilton, buscando nos versos de Adélia Prado as palavras que traduzissem a ação de dom André. "Como nas palavras de Adélia Prado, ele pode não falar de amor, mas demonstra em suas ações", comparou, após citar vários exemplos que testemunhou a humildade, ação pelos mais pobres, organização e conscientização do meio rural.

Zilton, que pessoalmente não tem ligações com qualquer religião, ressaltou que dom André atua para que suas paróquias celebrem e vivam a fé, sem esquecer a missão de transformar a sociedade. Ele contou ainda que, em seus mandatos parlamentares, não con-cedeu mais do que quatro títulos de cidadão. "Sempre quis dar um título como este, que seja irrefutável, indiscutível", explicou. Dizendo ter sido muito criterioso neste aspecto.

 

GRATIDÃO

 

Ao agradecer a honraria, o bispo fez questão de deixar clara a sua aversão por títulos e comendas, lembrando que ao completar 25 anos de padre, seu bispo quis lhe conceder o título de monsenhor, mas, agradecido de coração, preferiu não recebê-lo. No entanto, ele enumerou as razões de aceitar a homenagem da Assembleia Legislativa, concluindo que "receber o título de cidadão baiano para mim é bem diferente de outros títulos como reverendo, monsenhor, excelência e que, no espírito do Evangelho podemos dispensar e nos considerar e tratar como irmãos e irmãs, em Jesus, filhos do mesmo pai."

Elogiando o acolhimento e a hospitalidade dos baianos, "como eu tenho a graça e a alegria de experimentar todos os dias, há 35 anos", o religioso confessou ter "gratidão imensa" e a verdadeira "honra, alegria, a emoção de ganhar um povo"! Ele concluiu que não "pretende mudar nada nas intenções nem na prática da caminhada do meu serviço de bispo, mas espero continuar motivado e inspirado por Jesus, participando da construção de uma sociedade justa e solidária a serviço da vida."

André de Witte nasceu em 1944, no pequeno município belga de Scheldewin-deke e iniciou a educação em instituições católicas, onde descobriu sua vocação religiosa. Fez os estudos superiores no seminário na Faculdade Católica de Lovaina, onde se bacharelou em filosofia, em 1964, e teologia, quatro anos depois. "Filho de agricultores, com o ideal de servir melhor o povo latino-americano, seguiu o exemplo de Benoni Leys, colega da mesma diocese, e se formou como engenheiro agrônomo, em 1973.

 

PASTORAL

 

Em fevereiro de 1976, dom Witte desembarcou no cais do Recife, sendo recebido por Benoni, com quem iria formar equipe na recém-criada diocese de Alagoinhas. Desde então, aliou o trabalho eclesiástico com o trabalho pastoral, de acordo com o objetivo da CNBB de "participar da construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida, rumo ao reino definitivo."

Companheiro de dom Witte por toda uma vida, o padre Benoni lembrou ontem que foi nesse espírito que se fundou a primeira pastoral rural, muito antes de surgirem movimentos como o MST. O padre lembrou ainda de outros embates que o bispo enfrentou, como a luta contra a instalação de uma fábrica de celulose em Porto Sauípe. "O povo não come celulose, come mandioca", relembrou, citando trabalhos conjuntos ainda com as pastorais de Paulo Afonso e Amargosa.

 

PROTOCOLO

 

Assim como Benoni, o padre Adenilton ocupou a tribuna, agradecendo ao pre-sidente pelas sucessivas quebras de protocolo, e frisou a importância da ocasião por saber da aversão do bispo por títulos e distinções. O próprio Bira destacou que a honraria é muito mais do que a identificação de um baiano, mas o reconhecimento de alguém que deixou sua terra para atuar por uma comunidade distante, plena de necessidades e carências.

O prefeito de Ruy Barbosa, José Bonifácio, agradeceu ao bispo a cessão de um terreno, onde estão sendo construídas casas populares e uma creche. A deputada Neusa Cadore (PT) falou como uma paroquiana de Pintadas e definiu o bispo como "pai e irmão que ensina cidadania" e disse que seu "testemunho é muito importante para todos nós."

A deputada Fátima Nunes (PT) parabenizou Zilton pela "brilhante iniciativa" e chamou dom André de "nosso parceiro de Inhambupe". Para ela, a chegada do religioso à região foi revolucionária, em sua ação pela partilha. O deputado Aderbal Caldas (PP) afirmou que "esse título nos honra tanto ou mais do que ao senhor, que recebe."



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