Luz, paz e amor. Esse é o lema do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV), que comemorou ontem 50 anos de fundação em sessão especial realizada na Assembleia Legislativa. A iniciativa foi do deputado Cacá Leão (PP), que ressaltou tratar-se da única religião genuinamente baiana. Embora surgido na fronteira do Acre com a Bolívia, o centro espírita foi fundado por Gabriel da Costa, um seringueiro baiano de Coração de Maria, sendo trazido para a Bahia por seus discípulos, em 1976.
O parlamentar fez questão de contar em plenário a sensação de serenidade que conheceu ao experimentar o chá de hoasca – bebida produzida a partir de plantas amazônicas e ingerida durante as reuniões da UDV –, fato elogiado pelo mestre Ivan Evangelista, em seu discurso de agradecimento: "Cacá mostrou ser uma pessoa de coração sincero, pois não só ouviu nossas palavras como fez questão de participar do nosso culto". O deputado foi presenteado com a bandeira da entidade.
A presença maciça de adeptos na sessão, lotando o plenário, o Salão Nestor Duarte e as galerias Paulo Jackson, mostrou o progresso da UDV no estado, onde já existem núcleos em 11 municípios. Participaram artistas como Jackson Costa, Margareth Menezes e Xangai, políticos das mais variadas cores partidárias, além de representantes dos mais diversos setores da sociedade.
A professora universitária Antonia Torreão, conselheira da UDV, ocupou a tribuna para aprofundar a história, cujas linhas gerais acabara de ser contada pelo deputado pepista. Ela falou com a profundidade de quem colabora com a irmandade há 34 dos 35 anos de existência na Bahia. "Esta religião conclama o discípulo a integrar em seu viver os três pilares que a sustenta: a família, o trabalho e a religião."
NATUREZA
O mestre José de Anchieta ressaltou que o chá da hoasca é conhecido na América desde a chegada dos europeus. "O chá não é droga nem alucinógeno, é um mistério da natureza", definiu, ressaltando que o mestre Gabriel dizia que procurava um tesouro e que encontrou ao ser apresentado ao vegetal. Desde então, a UDV se disseminou pelo país e pelo exterior, como Suíça, Portugal, Inglaterra e Estados Unidos. Trata-se, segundo Anchieta, de "uma religião discreta, não secreta", com fundamentos no cristianismo e crença na reencarnação.
A vereadora Olívia Santana (PCdoB) ocupou a tribuna para enfatizar que a UDV vem obtendo crescimento sem o apelo da aparição fácil. Diante da presença marcante do seu partido ao evento – além dela, os estaduais Kelly Magalhães, Álvaro Gomes, e os federais Alice Portugal e Daniel Almeida –, ela chegou a brincar, dizendo que "se vê a dificuldade de ser materialista nesta terra", mas que, na realidade, é um traço da legenda a luta contra a intolerância. "A UDV tem demonstrado que é parceira da ciência e, portanto, contra o obscurantismo religioso", definiu.
Alice fez pronunciamento no mesmo sentido, frisando que "a liberdade de organização religiosa é uma conquista". Ela foi além e garantiu que "nós não queremos apenas tolerância religiosa no Brasil, queremos respeito, porque respeito é mais do que tolerância."
O presidente da UDV, Flávio Mesquita, disse que a entidade possui mais de 15 mil filiados, distribuídos em 160 núcleos. "Foi uma expansão natural, sem que nos valêssemos de qualquer tipo de propaganda", disse. Ele afirmou que a UDV é uma escola de sabedoria que não pretende competir com nenhuma religião. "Ao contrário, reconhecemos o mérito de todas as que pregam o bem e a existência de um só Deus."
Participaram também do evento, o presidente Marcelo Nilo, que abriu os trabalhos, os deputados Augusto Castro (PSDB), Ângelo Coronel (PP), Maria del Carmem (PT) e Rosemberg Pinto (PT), além dos ex-prefeitos Humberto Ellery, de Camaçari, e Jabes Ribeiro, de Ilhéus, cidade que também possui um núcleo.
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