Povo de santo de vários terreiros da Bahia, políticos, professores, alunos, imprensa, representantes do Judiciário, além de inúmeros órgãos governamentais e da sociedade civil organizada lotaram o plenário da Câmara Municipal de Ilhéus para participar, na última sexta-feira, da audiência pública que debateu a intolerância religiosa no município, promovida pela Comissão Especial da Promoção da Igualdade, presidida pelo deputado petista Bira Corôa.
Por mais que todos os presentes soubessem do caso que motivou a audiência, todos pararam, atentamente, para ouvir a ialorixá Bernadete de Sousa, líder religiosa do terreiro Ylé Odé Omí Uá narrar as agressões físicas sofridas por ela, quando policiais da 70ª CIPM, Companhia Independente de Polícia Militar de Ilhéus, invadiram o Assentamento Dom Helder Câmara no dia 23 de outubro de 2010.
"Eles pareciam umas feras. Voaram sobre mim, me jogaram no formigueiro e disseram que ali era bom para o demônio sair", relatou a ialorixá, que afirmou ter "recebido Oxóssi" – incorporado da sua entidade – na hora da prisão. Mãe Bernadete foi detida, presa em uma cela junto com homens e se sentiu "invisível" ao ler o resultado do exame de corpo de delito. "Minha idade foi diminuída para 28 anos e tenho 42, fui declarada parda e me considero negra e no campo que define religião, li, desconhecida", ironiza a sacerdotisa.
OFICIAL
"Não é com satisfação que estamos aqui neste momento. Bom seria não existir mais a necessidade destes atos. Estamos aqui pelo nosso compromisso com o povo, respeito a todas as vítimas e por não aceitar que atitudes como essas fiquem impunes no estado mais negro fora da África", afirmou o presidente da Comissão, informando que esta audiência pública e o desmembramento dela, com as punições devidas aos culpados, deverá servir de norteamento de como deve ser tratada qualquer forma de preconceito e intolerância religiosa na Bahia.
Apesar das autoridades presentes – coronel Reis, representando a Polícia Militar, e o delegado Carlos Nascimento, da Corpin – garantirem que esta postura não representa as corporações e que os fatos serão apurados e julgados nos rigores da lei, os pronunciamentos seguintes aos seus manifestaram temor pelo resultado da investigação, já que o corregedor adjunto da Polícia Militar, tenente-coronel Manuel Souza Neto, responsável pelo relatório, disse em um programa de TV local que será difícil provar que houve crime de intolerância religiosa, uma vez que na Bahia "todos são católicos, mas gostam de um sambinha" – palavras atribuídas ao corregedor por vários oradores.
MUDANÇA
Frisando estar completamente consciente que atitudes justas serão adotadas neste caso, o deputado petista salientou a autonomia e o respeito que passou a ser dado às pessoas. Para exemplificar isso, ele revelou que todos no governo sabem desta audiência, todos enviaram representantes e ou e-mails justificando ausência; no entanto, não recebeu nenhuma ligação solicitando a adoção dessa ou daquela postura no debate. O coronel Batista, comandante do 2º BPM, como muitos outros, evidenciaram a importância deste debate nos moldes que foi realizado. "É exaltando a verdade que combatemos a mentira. Este momento ímpar deve figurar na história como um divisor de águas. Que passe a servir de palestra e de orientação para ações que não mais permitam que fatos como esse voltem a acontecer", disse.
O próximo passo nesta luta será uma audiência em Brasília, aprovada para a primeira quinzena de dezembro pela Frente Parlamentar em Defesa da Igualdade Racial na Câmara e Congresso Nacional. "A sociedade está mobilizada, estamos recebendo apoio de várias entidades de todo o país, de centrais sindicais, do movimento negro organizado e da sociedade civil. Isto faz o movimento fortalecer. A nossa luta passou de um episódio e abriu portas para outras discussões bem mais amplas a respeito do preconceito, da intolerância religiosa e da diversidade social do país", frisou Mãe Bernadete.
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