Tema foi amplamente debatido por deputados e religiosos
A demolição do terreiro de candomblé Oyá Unipó Neto, realizada pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município de Salvador, Sucom, no último dia 27, foi amplamente debatida ontem, na Assembléia Legislativa, na audiência pública promovida pela Comissão Especial da Promoção da Igualdade, presidida pelo deputado Bira Coroa (PT). O parlamentar qualificou a atitude da Sucom como "agressiva e desrespeitosa" ao direito constitucional da prática religiosa. "Não é só a demolição de uma construção, é sim uma agressão a uma religião e à força de luta do povo negro", frisou.
"Falo em nome de todos os escravos: minha raça negra e minhas raízes foram violentamente desrespeitadas", desabafou emocionada a ialorixá Rosalice do Amor Divino, Mãe Rosa, líder religiosa do terreiro, que, segundo ela, existe há mais de 20 anos naquele local ( Avenida Jorge Amado, Imbuí). Ela declarou na audiência que é a segunda vez que o terreiro foi demolido. "Em 1997 aconteceu a mesma coisa, mas não tive o apoio que estou tendo agora", salientou.
Retratação
Marcos Rezende, do Coletivo de Entidades Negras, CEN, está no quarto dia de greve de fome em protesto pelo que ele chama de "desserviço prestado pela prefeitura". Para ele, um templo sagrado foi profanado e este fato não pode ser despercebido na Bahia, onde o candomblé tem grande importância. "Não é greve de fome e sim de alguém desejando viver", salientou, destacando que não existe exigência e sim um pedido humilde para que ocorra uma retratação pública da prefeitura.
O secretário estadual de Promoção da Igualdade, Luiz Alberto, enfatizou que este ato representa a "bestialidade de uma civilização que insiste em não reconhecer a importância do povo negro". Para ele, Kátia Carmelo, superintendente que coordenou a demolição, deveria vir a público reconhecer seu erro e pedir desculpas, pois não se trata de questão somente religiosa, mas, principalmente, social.
Desconfiança
Para o secretário, o fato da superintendente continuar ainda como secretária municipal de Planejamento, à qual a Sucom é subordinada, gera na população desconfiança. Este pensamento também foi defendido por Almiro Sena, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate à Discriminação do Ministério Público Estadual (MPE), responsável pela apuração do caso. "Como a população vai se sentir, sabendo que o planejamento da cidade está na mão dessa pessoa?", indagou Almiro, que qualificou a atitude da superintendência como uma "violência brutal e um absurdo criminoso", que fere as Constituições federal e baiana, as quais garantem a liberdade de crença, exercício de culto, assegurando, inclusive, a proteção dos templos e dos objetos destes.
A Secretária Municipal da Reparação, Antônia Garcia, ressaltou que questões como estas não podem ser discutidas como um ato pontual. "É um desafio permanente e cotidiano", salientou. O deputado Ivo de Assis (PR), vice-presidente da comissão, disse que nestes momentos a Constituição é completamente desrespeitada. "Temos que nos unir, uma vez que a Constituição nos garante este direito", afirmou.
Diversos representantes de movimentos negros e terreiros religiosos demonstram sua indignação e aproveitaram a oportunidade para convidar a todos presentes para participar de uma grande caminhada em repúdio à demolição do terreiro de Mãe Rosa, que acontecerá amanhã às 14h, partindo do Campo Grande com destino à prefeitura. "Estaremos em silêncio e todos devem ir vestidos de branco", frisou Marcos Rezende.
REDES SOCIAIS