Na CPI da Ebal, admitem ter recebido dinheiro de empreiteiro
Em acareação realizada ontem pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga irregularidades na Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), o ex-gerente de engenharia da empresa, Leôncio Cardoso, e o ex-diretor financeiro, Antônio Mário, admitiram ter recebido empréstimos do empreiteiro José Gomes, dono da Comasa Empreendimentos. Em depoimentos anteriores à CPI, eles garantiram que o relacionamento com José Gomes – cuja empresa foi beneficiada com as maiores obras da Ebal – era estritamente profissional. O ex-presidente da empresa, Omar Brito, também participou da acareação, mas continuou negando ter tido qualquer relação pessoal com o empreiteiro.
"A grande contradição da acareação foi o fato dessas três pessoas, que diziam mal se conhecer, terem admitido manter relações pessoais e muito próximas até", avaliou o deputado Zé Neto (PT), relator da CPI. O que, na verdade, motivou os dois a admitirem ter relações pessoais com José Gomes foi a quebra do sigilo bancário dos três, que comprovou depósitos feitos pelo empreiteiro nas contas dos ex-dirigentes da Ebal e de seus familiares.
O ex-diretor financeiro Antônio Mário admitiu, por exemplo, em seu depoimento de ontem, ter recebido R$ 70 mil em empréstimo de José Gomes – R$ 50 mil em depósitos na conta da esposa e R$ 20 mil na sua própria conta. Ele disse já ter pago os empréstimos, mas em dinheiro vivo - o que justificaria o fato de não ter depósitos feitos por ele na conta de José Gomes. "Ele (José Gomes) me emprestou dinheiro algumas vezes", afirmou. Ao serem questionados pelo deputado Paulo Rangel (PT) se consideravam ético terem recebido empréstimos do empreiteiro cujas obras deveriam fiscalizar, os depoentes optaram por permanecer em silêncio – direito que lhes é assegurado na condição de indiciados.
O ex-gerente do setor de engenharia argumentou que o dinheiro depositado em sua conta por José Gomes foi resultado da venda de um carro feito ao empreiteiro. "Eu já vendi carro para pessoas que nem conheço", disse Leôncio Cardoso durante a acareação. Apesar de o gerente ter preferido o silêncio na acareação, o seu advogado Plácido Farias admitiu ter sido anti-ética a relação entre o seu cliente e o empreiteiro. "Mas existe uma diferença muito grande entre não ser ética e ser criminosa", acrescentou ele, argumentando que Cardoso não tinha poder de decisão dentro da Ebal. No entanto, ele era o gerente do setor responsável justamente por fiscalizar as obras feitas pela empresa de José Gomes.
NÃO SABIA
A defesa feita por Antônio Mário na acareação seguiu a mesma linha. Ele afirmou que só autorizou pagamentos de notas fiscais emitidas pela Organização do Auxílio Fraterno (OAF). "Nós só fazíamos o pagamento quando havia a comprovação da realização da obra e a autorização do presidente", disse. As empreiteiras eram contratadas para realizar as obras nas lojas da Cesta do Povo e outras unidades da Ebal através da OAF. O ex-presidente da Ebal, Omar Brito, sustentou inclusive no depoimento de ontem que não sabia da terceirização dos serviços feitos pela OAF – situação proibida no contrato feito entre a entidade e a Ebal.
De acordo com Zé Neto, entre 2003 e 2006, a Ebal pagou cerca de R$ 46 milhões às empreiteiras que realizaram obras nas unidades da empresa – e as duas principais beneficiadas foram a Silveira Engenharia e a Comasa Empreendimentos. "Desse total, já está comprovado que R$ 5 milhões foram pagos com notas frias", afirmou Zé Neto. De acordo com o relator da CPI, só numa loja do pequeno município de Aiquara, onde o irmão de Omar Brito possui uma fazenda, uma loja chamada Comercial Bispo emitiu R$ 3,6 milhões de notas frias para a empresa de José Gomes. Detalhe: a loja está fechada e no local funciona o comitê do prefeito do município.
O relatório elaborado por Zé Neto, depois de aprovado pelos demais integrantes da CPI, será encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPE), que poderá indiciar os ex-dirigentes da Ebal que participaram da acareação de ontem, além de José Gomes e Sílvio Silveira, da Silveira Empreendimentos. Dentre outras pessoas. Zé Neto espera concluir seu relatório até o final deste mês. Antes disso, no entanto, a CPI voltará a ouvir o publicitário Fernando Barros, presidente da Propeg. Ele esteve na Assembléia Legislativa, na semana passada, mas por conta de divergências entre os integrantes da CPI não chegou a ser inquirido.
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