Entre tantas coisas, roubaram também o cheiro de mar da Bahia. Esta foi a acusação de Bob Fernandes, que ele definiu como lamento, durante a sessão especial na Assembléia Legislativa em que lhe foi concedido o título de Cidadão Baiano, na tarde de ontem. Durante o discurso de agradecimento, ele usou do poder de concisão para criticar a especulação imobiliária e a transformação da Bahia em um “porto de negócios” para os “poucos donos de sempre”. Nas últimas três laudas de um discurso de 31, ele revelou o tom que o caracterizou no jornalismo. O restante ele reservou para falar da família, dos amigos, “como fios condutores na linha da minha vida”.
“Lamento e invejo que tomem para si os mais belos pontos, as mais belas vistas, lamento que, para tanto, ergam construções grotescas, burras, que terminam por entupir as ruas com automóveis, engarrafamentos”, disse. Ele revelou também preocupação com “a perspectiva de novas cortinas de concreto”, com a alteração do gabarito da orla de Salvador. Segundo o jornalista, além de ser de péssimo gosto, as novas construções tornarão a cidade sufocante “se a população não se levantar e permitir isto”.
“Aceito, compreendo, quero a modernização”, observou, considerando necessário repensar Salvador. “Mas recuso, rejeito esse discurso modernizante, quando ele apenas esconde a sanha predatória e burra”, que, segundo ele, tornará inabitável e horrenda uma das mais belas cidades que os deuses doaram aos homens e mulheres. Bob Fernandes foi enfático também ao dizer que não apenas lamenta, mas protesta e protestará, “cada vez mais”, contra “a privatização das ruas, das calçadas, do espaço público durante o Carnaval”. A lógica atual da folia, continuou, faz dinheiro “para os mesmos de sempre, os eternos donos do poder, enquanto os que nada têm se espremem nas cordas”.
RAÍZES
A Bahia, contou o homenageado, esteve sempre presente em sua vida. Tinha 3 ou 4 anos e lembra das histórias bem humoradas do pai, Henrique, “quase sempre de personagens populares”, sobre Salvador. O pai, baiano, também levou para São Paulo a paixão tricolor, que inseminou no filho desde cedo. A mãe Beatriz, por sua vez, apresentou o universo de Vitória da Conquista, sua terra natal. Ele chegou a Salvador, junto com o irmão Fred, para prestar o vestibular e terminou fisgado pelo Verão e pelo Carnaval. Reprovado no concurso, voltou no ano seguinte, quando passou e começou a traçar seu destino.
De recordação em recordação, Bob Fernandes citou bem uma centena de nomes. E discursou com temor real de esquecer alguns. “Se pudesse, não o faria”, disse, contando que tentou negociar com Emiliano o seu silêncio, mas se resignou. Pensou também em falar de improviso, mas aceitou o conselho do parlamentar de que seria “uma catástrofe”.
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