A Assembléia Legislativa realizou ontem sessão especial para homenagear mãe Caetana, postumamente, e pai Air, respectivamente fundadora e babalorixá do candomblé Pilão de Prata, localizado na Boca do Rio, em Salvador, reconhecido como patrimônio histórico. O evento, proposto pelo deputado Aderbal Caldas (PP), contou com a participação do povo-de-santo, que coloriu o plenário com seus turbantes, panos-da-costa e saias rendadas.
No discurso de saudação, Aderbal destacou a importância dos dois para o candomblé, emocionando os presentes, muitos dos quais conviveram no dia-a-dia com mãe Caetana, falecida há 13 anos. “Hoje tenho a gratíssima satisfação e grande honra de homenagear ‘in memoriam’ mãe Caetana Sowzer e o seu filho e herdeiro, o babalorixá Air José de Souza, pelo seu magnífico trabalho de preservação, dedicação e muito carinho pela guarda de amostras da memória da resistência religiosa afro-brasileira”, disse ele.
SABEDORIA
Sobre a matriarca do candomblé, descendente direta de Rodolfo Martins, um dos primeiros organizadores da religião na Bahia, o parlamentar ressaltou a sabedoria singular e a tranqüilidade e alegria com que preenchia a vida de filhos-de-santo, dos simpatizantes e agregados. Essas palavras foram recebidas e confirmadas por todos os oradores que se seguiram na tribuna: o vereador de Muritiba Arquimedes Souza, irmão de pai Air e, assim como ele, criado por Caetana; o ogã Antonio Carlos de Souza, e Roberto Gaudenzi, primeiro-secretário da Sociedade de Preservação do Axé Bangboxé.
Todos os representantes do povo-de-santo iniciaram suas falas pedindo licença aos orixás, aos eguns, aos presentes, preenchendo o plenário com o som das palavras em yorubá. Antonio Carlos foi responsável pelo pronunciamento mais afetivo, com detalhes sobre o dia-a-dia com Caetana. Ele contou, por exemplo, que a mãe-de-santo não marcava hora para nada, pois não aceitava ser escrava das horas. “Mãe já é ‘tal’ hora”, disse, lembrando da resposta tranqüila: “E é mesmo, meu filho, mas vamos continuar tocando...”.
Arquimedes, por sua vez, afirmou que ela não cobrava dinheiro para conselho nem trabalho. “Casa de seita não é armazém nem mercado para cobrar”, ensinava. Na opinião de todos, a sua falta é irreparável. Gaudenzi, por sua vez, foi escalado para agradecer a homenagem em nome de pai Air. Ele foi didático ao historiar as raízes do candomblé, mostrar a importância de Caetana neste contexto e o trabalho desenvolvido pelo babalorixá do Pilão de Prata.
A mesa dos trabalhos foi composta por todos os citados, além de mãe Haidê Paim, sobrinha de Caetana e mãe-de-santo do terreiro Lajoumin, localizado na Avenida Vasco da Gama, que também segue a tradição bangboxé; elemaxó Ney Gomes e o ex-vereador Dionísio Juvenal.
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