“Esse Ariovaldo Matos traz no sangue o demônio da literatura”. A definição é de ninguém menos do que o escritor Jorge Amado. Já em 1959, ele identificava que “a vocação literária (em Ariovaldo Matos) foi mais poderosa que todos os outros chamados. Terminou por impor-se, vencendo mesmo o jornalista ágil, o repórter de incomum vivacidade”. Neste mês, os baianos terão a oportunidade de constatar se o consagrado escritor tinha razão. A Assembléia Legislativa, em mais uma parceria com a Academia de Letras da Bahia (ALB), lança Anjos Caiados – romance inédito do jornalista, escritor, contista e dramaturgo baiano, que morreu em 1988.
Através dessa parceria, já foram lançados A Primeira Gazeta da Bahia: Idade D´Ouro do Brazil, da escritora Maria Beatriz Nizza da Silva; Figuras de Azulejo, do jornalista Pedro Calmon; e A Noite dos Coronéis, do jornalista, escritor e acadêmico Guido Guerra (publicação dividida em dois volumes). E foi Guido, que morreu recentemente, a quem a família de Ariovaldo Matos confiou os originais de Anjos Caiados. Ele, que tem diversos títulos publicados, também participou ativamente da produção deste livro, inclusive revisando os originais.
TRAJETÓRIA
“Anjos Caiados, cuja redação definitiva data de 1979, remete o leitor a uma Bahia que não existe mais – a do Anjo Azul e do Cassino Tabaris”, escreveu Guido, num texto que conta a trajetória de Ariovaldo Matos, incluído na edição que será lançada pela AL. Além de Guido, também foram incluídos no livro os textos de Jorge Amado e do professor universitário e jornalista Othon Jambeiro, que descreve Ariovaldo “como um dos mais intensos modelos de comportamento que passaram na minha vida”.
Para Othon, Ariovaldo era um desses seres humanos indivisíveis, que “guardam uma integridade que resiste ao desmonte”. Essas personalidades, argumenta Othon, “exibem uma articulação moral, psicológica, profissional, cultural, social, política, ideológica, que impossibilita separar o homem do que faz, do que pensa, de como age, do que produz”. Isso, acrescenta, se refletia tanto no político, no escritor ou no teatrólogo. “Quem o admirava (...) logo concluiria que o comportamento político, os livros e contos, as peças teatrais traziam todos a mesma compreensão da vida, da sociedade, dos homens”.
Além de romances, Ariovaldo se notabilizou pela produção de contos e peças teatrais. Dentre essas publicações, está o volume de contos A Dura Lei dos Homens, de 1960, detentor do Prêmio Prefeitura Municipal de Salvador. Em 1967, conquista o Prêmio Xavier Marques, instituído pelo governo da Bahia, com a novela As Aventuras do Senador Tônio Petrucci. No mesmo ano, conquista o Prêmio Jorge Amado para Dramaturgia, com sua primeira peça A Escolha ou O Desembestado, encenada no Teatro Santo Antônio.
Em 1969, acontece a estréia de sua segunda peça teatral, A Engrenagem, que assim como a primeira teve a direção de Orlando Senna, mas foi encenada no Teatro Castro Alves. No ano seguinte, O Desembestado estréia em São Paulo, no Teatro Paiol, com Perry Sales, sob a direção de Orlando Senna. No ano seguinte, é condenado pela Justiça Militar, por conta de suas posições políticas, e é recolhido à Casa de Detenção, onde reescreve As Aventuras do Senador Tônio Petrucci, com o título definitivo de Os Dias do Medo.
Seus problemas com os militares continuaram em 1975, quando a Censura Federal vetou integralmente sua peça O Ringue. Ariovaldo criou ainda a peça E Todos Foram Heróis. Mas ele se notabilizou também pelos contos, tendo publicado Colagem (desvairada) em Manhã de Carnaval, e pelos romances, com Os Dias do Medo e Corta-Braço (seu primeiro trabalho). Como jornalista, Ariovaldo foi chefe de reportagem do Jornal da Bahia e fundador do semanário Folha da Bahia, além de atuar em outras publicações.
Anjos Caiados é, segundo o próprio autor, um romance de muitos enredos. Posição elucidada pelas palavras de Guido Guerra na abertura da publicação. “O que importa neste romance, inédito, tirante o desenvolvimento temático em nível de abordagem, é a exploração de múltiplas linguagens, não múltiplos narradores, o que conduziu à montagem de texto, à semelhança do Jogo da Amarelinha, de (Júlio) Cortázar”.
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