Tradicional manifestação cultural do município de Santo Amaro (Recôncavo baiano), a festa do Bembé do Mercado é uma variação do candomblé e foi a forma que os negros santamarenses encontraram de comemorar a Abolição. A definição é do deputado Heraldo Rocha (PFL), que apresentou na Assembléia Legislativa uma moção de congratulações pela realização do evento, no último dia 13 de maio.
No documento, Heraldo conta que no dia 14 de maio começava uma nova luta para o povo negro santamarense: os ex-senhores de escravos, inconformados com a lei da Abolição, proclamavam aos quatro ventos que nada havia mudado e pressionavam suas lideranças parlamentares para que a lei fosse revogada.
“Para mostrar que não estavam brincando, mobilizaram o aparelho policial da cidade para tolher movimentos da população negra, de modo a reter uma força disponível para o trabalho em regime de cativeiro”, relatou Heraldo. “E assim teria sido, sem a resistência negra para valer a liberdade. O movimento social pela Abolição foi reativado para tirar da cadeia os que foram encarcerados a pedido dos ex-senhores e para assegurar o direito de ir e vir de todos os ‘treze de maio’, como eram pejorativamente chamados os libertos pela lei da Abolição”, acrescentou ele.
De acordo com o deputado, passado um ano de luta contra a repressão e contra a discriminação, os negros de Santo Amaro resolveram festejar em praça pública o primeiro aniversário da lei de Abolição. Contudo, os barões ameaçaram e a polícia proibiu o ajuntamento de negros.
PRAGA
“Apesar de tudo e de todos, no dia 13 de maio de 1889, milhares de pessoas afluíram ao Mercado de Santo Amaro. Não se viu nenhuma parada cívica, não se ouviu nenhum discurso de agradecimento à princesa. Amparados por força dos seus orixás, os negros bateram candomblé no centro da cidade e, no sábado seguinte, jogaram um presente no mar aos orixás”, assinalou Heraldo, acrescentando que eles lançaram uma praga sobre a cidade: todo aquele que impedisse o bembé (uma corruptela de candomblé) do Mercado sofreria um castigo exemplar.
Diz a tradição santamarense que, em todo esse tempo, apenas em dois anos não se festejou o Bembé. Certa feita, um delegado valentão resolveu proibir o Bembé, mesmo porque o candomblé era proibido em todo o estado. Um mês depois, a esposa dele foi vítima de um acidente automobilístico e ficou com um braço inutilizado. Na outra ocasião em que não se fez o Bembé uma grande enchente castigou o centro da cidade.
Heraldo elogiou no documento a atuação do prefeito João Roberto Pereira de Melo na organização do evento. “Em virtude de toda representatividade que a data sugere, o prefeito João Melo, sempre solidário e sensível às expressões populares de sua terra, não mediu esforços para ajudar os terreiros na organização do evento que atrai turistas de todo o Brasil”, afirmou o deputado.
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