“Há espaço no mundo para caber todos nós”. Foi com essa mensagem de aceitação das diferenças que a médica pediatra Fátima Dourado, criadora da Fundação Casa da Esperança, encerrou ontem sua palestra sobre os autistas, em audiência pública realizada pelas comissões dos Direitos Humanos e da Infância e Juventude da Assembléia Legislativa. “Os autistas não têm doença mental. Eles possuem um padrão de comportamento diferenciado que vai lhes acompanhar durante toda vida, desde o nascimento até a morte. Cabe a nós aceitá-los e ajudá-los a desenvolver suas potencialidades”, acrescentou ela para um público formado por muitas mães e pais de autistas.
Também com dois filhos autistas, Fátima avisou logo no início de sua participação que estava ali para falar muito mais como mãe do que como especialista no transtorno que atinge um número ainda não estimado de brasileiros. “A maioria dos autistas está entregue à própria sorte. Muitos estão literalmente amarrados dentro de suas próprias casas”, contou ela. Fátima criou em 1996, em Fortaleza (Ceará), a Fundação Casa da Esperança, que hoje atende a mais de 200 autistas e é referência em todo o país. Na fundação, as crianças com o transtorno têm acompanhamento médico multidisciplinar, educação especial, lazer e todo o acompanhamento para não ser excluídos do convívio social.
E é justamente com o auxílio de Fátima Dourado que o deputado Padre Joel (PPS), presidente da Comissão da Infância e Juventude, espera melhorar a vida dos portadores do problema na Bahia. Ele elaborou um projeto de lei que prevê assistência integral aos autistas, com profissionais de psiquiatria, fonoaudiologia, pedagogia, psicologia e pediatria, dentre outros. O projeto prevê a realização de exames para o diagnóstico precoce do problema e atendimento em unidades especializadas nos períodos em que há a necessidade do paciente ficar internado por poucos dias.
OTIMISMO
A médica deu algumas sugestões para o projeto - como a necessidade da inclusão de um fundo para se garantir o suporte financeiro - mas sua maior contribuição ontem foi passar uma mensagem de otimismo às pessoas que têm filhos com o problema. Primeiro, ela reconheceu que nenhuma mãe inicialmente está preparada para ter um filho autista. “É preciso ser honesto para dizer que todos esperam ter um filho normal. Mas o autista não tem nada a ver com a frustração da mãe e do pai e o que ele mais precisa é da aceitação da família. E é preciso uma força muito grande para aceitar a diferença”.
Fátima Dourado fez questão de lembrar que existem muitos autistas geniais, que contribuíram para o desenvolvimento da humanidade. Ela citou o talento extraordinário de muitos em áreas como matemática e música. Mas reconheceu que a grande maioria tem problemas enormes de desenvolvimento e a metade dos autistas não consegue desenvolver a linguagem verbal. “A percepção do autista é diferenciada. A verdade é que eles nascem desequipados para entender nossas convenções sociais”.
Representantes de diversas entidades, a exemplo da Associação dos Autistas do Estado da Bahia, e de órgãos públicos participaram do evento, coordenado por Padre Joel e Walmir Mota (PPS), presidente da Comissão dos Direitos Humanos. A vice-reitora da Uneb, Amélia Teresa, destacou a necessidade de se criar cursos na universidade para formar profissionais especializados em educação especial. “Nós estamos sempre questionando na Uneb a necessidade de derrubar o muro que separa o saber científico, a produção de conhecimento e a sociedade como um todo”, afirmou ela.
Já a coordenadora da Promotoria de Cidadania do Ministério Público, Itana Viana, informa que a legislação brasileira já prevê o atendimento às pessoas portadoras de necessidades especiais, como os autistas. O problema, diz ela, é transformar aquilo que está previsto em lei em políticas públicas. “Temos que trabalhar agora nesse caminho”, sustenta ela. Diversos pais de autistas também se manifestaram, a exemplo de José Barbosa, que defendeu um suporte também para as famílias dos autistas, “que muitas vezes não sabem como lidar com o problema”.
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