Como não poderia deixar de ser, acabou em samba a sessão especial que concedeu o título de Cidadão Baiano ao carioca Martinho da Vila. Diversos grupos e cantores do ritmo surgido no Recôncavo marcaram presença, quinta-feira à noite, na sessão especial proposta pelo deputado Álvaro Gomes (PC do B) – e assinada também por seus colegas de legenda Javier Alfaya e Edson Pimenta - para homenagear o cantor e compositor que sempre foi identificado com a Bahia. “Modéstia à parte, acredito que mereço esse título porque desde o início da minha carreira, quando surgi para o Brasil, que todos achavam que eu era baiano”, contou de forma bem humorada o autor de sucessos como Casa de Bamba e Madalena do Jucu.
Os discursos de Martinho da Vila e de Álvaro Gomes foram os únicos feitos ontem, como de praxe na entrega de títulos. A sessão especial foi ditada mesmo pelo ritmo do samba. E não era para menos: dentre os músicos e grupos que marcaram presença na Assembléia estavam Riachão, Edil Pacheco, Claudete Macedo, Miriam Tereza, Gal do Beco, Mestre Cacau, Chocolate da Bahia, além do Clube do Samba, Academia do Samba, Ouriços do Samba, Perfil e os blocos Alvorada, Alerta Geral e Ilê Aiyê, dentre outros. Riachão foi o primeiro a puxar um samba, logo que Martinho da Vila entrou no plenário, acompanhado dos deputados Walmir Mota (PPS), Valmir Assunção (PT) e Javier Alfaya (PC do B).
Só depois da apresentação de algumas músicas, Álvaro Gomes iniciou sua homenagem ao sambista carioca, que leva sua paixão pela Escola Vila Isabel no nome. “Essa homenagem tem um profundo significado simbólico: na pessoa de Martinho da Vila vamos fazer uma homenagem ao samba, uma das maiores expressões da cultura brasileira”, declarou o deputado comunista. Ele lembrou que o samba levou o nome do Brasil para o mundo. “Mas o samba vai além, porque para muitos o samba é a própria razão da vida”.
Álvaro lembrou ainda em seu discurso a origem afro-baiana do samba, “que ao longo do tempo foi temperado com a influência carioca”. Para o proponente da sessão especial, conceder a cidadania baiana a Martinho da Vila se trata de mera formalidade. “Quem é sambista já nasce baiano por direito, pois compartilha com a Bahia o mesmo berço de onde nasceu o samba”. Logo depois da fala do parlamentar, se apresentaram os tradicionais grupos Ouriços do Samba e Perfil, acompanhados com entusiasmo pelas pessoas que lotavam o plenário.
O momento mais esperado foi quando o homenageado da noite se dirigiu à tribuna para agradecer o título entregue por Álvaro e pela deputada Antônia Pedrosa (PRP), que presidiu a sessão. Martinho disse estar feliz, sensibilizado e envaidecido - “embora”, declarou, “eu seja totalmente avesso à vaidade”. “Qual o cidadão de qualquer estado brasileiro que não gostaria de receber uma homenagem como essa?”, questionou ele para o público composto em sua maioria por “grandes amigos”.
Martinho lembrou que seu primeiro sucesso – Casa de Bamba – foi influenciado pelo samba-de-roda. Contou também que, em 1969, homenageou a Bahia no samba enredo da Vila Isabel, que venceu o concurso de escolas de samba naquele ano. Trata-se do hoje clássico Iaiá do Cais Dourado, no qual ele cantava: No cais dourado da velha Bahia/ Onde estava o capoeira/ A Iaiá também se via/ Juntos na feira ou na romaria/ No banho de cachoeira/ E também na pescaria.
E essa não foi a única composição de Martinho em homenagem à Bahia, como lembrou o próprio. “Camafeu foi um grande presente para meu amigo Camafeu de Oxóssi. Eu vinha do Rio de Janeiro para cá só para pescar com ele”, revelou o compositor, lembrando outros episódios de sua vida na capital baiana, a exemplo de sua participação na campanha feita para evitar o despejo do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. No final, ele fez questão de reforçar sua satisfação com o título recebido. “Fico feliz de dizer hoje onde eu for que sou conterrâneo de (Dorival) Caymmi”.
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