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Luiz Mott é cidadão baiano

Publicado em: 12/05/2006 00:00
Editoria: Diário Oficial

Lídice, Álvaro, Moema e Carla com o homenageado, durante a sessão especial, no momento em que a placa honorífica é entregue
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A Assembléia Legislativa concedeu o título de Cidadão Baiano ao antropólogo Luiz Mott, em sessão especial realizada ontem à tarde. A homenagem foi proposta pelo deputado Targino Machado (PMDB), que não esteve presente por estar convalescente, mas foi representado pela esposa, dona Carla, e substituído no discurso de saudação pela deputada Lídice da Mata (PSB), que agradeceu pela tarefa, considerando-a uma honra, fruto da generosidade do peemedebista.

Mott entrou no plenário, ladeado pelos deputados Walmir Mota (PPS), Valmir Assunção (PT) e Zé Neto (PT). Ele portava uma bandeira arco-iris – símbolo do movimento gay – e seguiu ao som de “Super-homem”, de Gilberto Gil, na voz de Cristine Cardoso, acompanhada por José Nascimento, ao violão. Apesar do clima descontraído, a sessão pontuou pelo discurso francamente político de defesa dos direitos dos homossexuais. Tanto no pronunciamento de Lídice, quanto no de Mott e, no encerramento, pelo presidente da sessão Álvaro Gomes (PCdoB), se chamou a atenção de que a homenagem era justa, porém tardia, já que iniciativas anteriores – das ex-deputadas petistas Maria José Rocha e Moema Gramacho, além da própria Lídice – ou foram arquivadas ou rejeitadas.

CORAGEM

Lídice chamou a atenção também para a dificuldade da aprovação da proposta de Targino, contando os pormenores do processo de votação. Antes disso, ela iniciou sua fala apresentando o vasto currículo de Mott, incluindo formação, livros publicados e prêmios recebidos. Explicou que esse era um meio de evitar desqualificações, fazendo paralelo a uma atitude necessária quando as mulheres começaram a atuar para se afirmar na sociedade. Ela citou vários momentos em que suas vidas se cruzaram, começando em 1982, quando ainda era vereadora e ajudou a aprovar o título de utilidade pública do Grupo Gay da Bahia (GGB), o qual era presidido por Mott. Citou ainda as lutas em comum na Constituinte e, mais tarde, na parceria entre o GGB e a prefeitura sob sua gestão na prevenção à Aids.

Declarando-se “emocionado, feliz, alegre e agradecido”, Mott ocupou a tribuna para revelar-se particularmente grato à coragem de Targino, que, “mesmo não tendo nada a ver com o movimento gay”, lhe dedicou o primeiro título de cidadão proposto por ele. Lembrou que a homenagem se deve por ser ele representante de uma minoria que estaria em 10% da população. Segundo seus cálculos, representaria os interesses de um milhão de homossexuais na Bahia. Como sempre, deu “nome aos bois”, alguns notórios e outros que ainda não teriam “saído do armário”.

A respeito da Bahia, contou que foi amor à primeira vista, quando aqui chegou, ainda menino, com a família. Em 1979, se mudou de vez para cá, como professor da Ufba, passando a viver quase a metade dos seus 60 anos. Ele relatou que tinha meses em Salvador, quando levou uma bofetada por estar sentado com o companheiro, atrás do Farol da Barra. “Esse tapa na cara pode ser considerado o momento histórico da fundação do GGB”, disse. A fundação foi no ano seguinte, quando 17 jovens se reuniram e se espalharam na cidade pixações do tipo “é legal ser homossexual”.

Apesar do lema, no pronunciamento Mott falou da dificuldade de enfrentar a “ditadura da heterossexualidade”. Citou as ameaças que já sofreu, enumerou as diversas pessoas assassinadas, vítimas da homofobia e criticou o papa Bento XVI, por entre outras coisas considerar que o homossexual é intrinsecamente mau. “Somos excluídos de 36 direitos civis”, denunciou, considerando que “se ¼ desses direitos fosse negado aos negros já teríamos tido uma revolução”.



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