Mantendo o tom político que assumiu desde 17 de abril - quando a Câmara dos Deputados votou pelo seu afastamento do cargo - e em defesa do seu mandato, a presidente afastada Dilma Rousseff qualificou o atual Governo Federal de “interino e provisório” e o acusou de pretender extinguir o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. E reafirmou ser vítima de um golpe. Traçando um paralelo e lançando mão de metáforas, Dilma disse que a diferença entre 1964 e os dias atuais é que naquela época “a democracia era a árvore e o golpe militar o machado destruindo a árvore. O modelo atual é o da árvore sendo atacada por parasitas implacáveis”. As afirmações foram feitas em discurso ontem na Assembleia Legislativa onde Rousseff recebeu o Título de Cidadã Baiana por proposta do correligionário Rosemberg Pinto.
Sem citar o nome do presidente em exercício Michel Temer nenhuma vez nos seus mais de 30 minutos de discurso, a presidente afastada acusou o atual governo de “não ter legitimidade” capaz de propor soluções para a crise política e econômica do país, que considerou “grave, sem dúvida”. Defendeu que o Brasil “não pode voltar atrás” e prometeu dialogar com “os senadores sérios” (o Senado está às vésperas de votar o impeachment dela), ir “às ruas debater com a população” e movimentos sociais, e lutar. “Só assim se extirpa os parasitas da árvore”, disse.
APELO
Dilma Rousseff teorizou sobre a “ação do Estado”, que seria a de “dirimir injustiças e dar oportunidades” à população e defendeu uma “cidadania mais forte e consciente”. Revelou “orgulho de ter investido na Bahia, em todos os sentidos”. Citou nominalmente aqueles com quem compôs uma “parceria republicana” em favor do Estado: ela própria, o ex-presidente Lula, o ex-governador e ex-chefe da sua Casa Civil, Jaques Wagner, o atual governador Rui Costa.
Na análise que fez, houve “vontade política para transformar em realidade alguns desafios”. E o resultado é que “Salvador e a Bahia mudaram”. Se disse “contente” com o que viu, elogiando duas obras do Governo da Bahia na capital: o metrô de Salvador, que avança “a olho nu”, e a Via Expressa, que “tira os caminhões do centro e os leva ao porto”. Quanto ao metrô, considerou “um grande desafio” e manifestou o desejo de vê-lo concretizado ainda neste governo.
Citou programas implementados em seu governo como o Minha Casa, Minha Vida e o Bolsa Família, uma “obra importante, que não é física, mas de transferência de renda” que, na Bahia, beneficia “7,2 milhões de pessoas “como complemento de renda”. Este programa corre risco, advertiu, assim como acusou também o Governo Federal de pretender acabar com o Minha Casa, Minha Vida. Pelo menos na “faixa 1”, segmento que abrange os assalariados entre R$1.820,00 a R$ 2.000,00, e onde se encontram “80% do déficit” habitacional do país. Acabar com esta fase “é colocar em risco de morte” e “desvirtuar” todo o Programa, garantiu. Na Bahia, segundo dados da presidente afastada, o Minha Casa, Minha Vida, em parceria com o Governo do Estado e dos municípios entregou 184,5 mil habitações das “300 mil contratadas”.
Dilma lamentou “a infeliz proposta” enviada pelo Governo ao Congresso Nacional que, segundo disse, “vai reduzir os investimentos em Saúde e Educação”, sem que haja “sequer razão para isso” ou “justificativas”. E disparou: “Esse programa não passaria nas urnas, ninguém votaria”. Elogiando a Bahia e sua “tradição de luta”, a presidente afastada reafirmou “compromisso com o desenvolvimento” do Estado e do Nordeste, relembrou os votos que recebeu em 2014 e se disse na “obrigação de defender e honrar” os eleitores baianos, que qualificou como “povo alegre, mas aguerrido”.
Dilma Rousseff se disse orgulhosa de receber “com honra” o Título de Cidadã baiana, agradeceu duas vezes ao proponente Rosemberg Pinto e elogiou os baianos, que “representam a alma brasileira na alegria da sua população”. Revelando satisfação em estar na Bahia, disse que sempre leva daqui uma “enorme força de vida” e que o Brasil não apenas nasceu na Bahia, mas nela “se criou”. Ao encerrar seu discurso, Dilma pediu: “Não vamos deixar que os parasitas matem nossa árvore”.
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