Um projeto de grande significado para uma das maiores e mais apaixonadas torcidas do Brasil foi apresentado na Assembleia Legislativa pelo deputado Bobô (PC do B). A matéria estabelece o reconhecimento da torcida do Bahia como Patrimônio Cultural e Imaterial do estado, com base nos artigos 216 da Constituição Federal e 271 da Constituição baiana, além dos critérios estabelecidos pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e pelo Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia).
Na justificativa do projeto, o comunista apresenta pesquisas sobre a importância do futebol para a nossa sociedade, como no livro “Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes”, onde o autor Arlei Sander afirma que a modalidade esportiva pode ser vista como uma linguagem e falar sobre o futebol é uma forma de versar sobre o país e sobre a identidade nacional.
Em um dos trechos sublinhados por Bobô, o escritor mostra que durante jogos da Seleção Brasileira e dos times do coração, tem-se a reunião de pessoas que expressam suas alegrias e angústias, dependendo do resultado. Segundo a professora no Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Simoni Lahud Guedes (autora dos livros O Brasil no campo de futebol e Nações em campo), a antropologia explica essa construção através do surgimento da concepção de que o futebol brasileiro reproduz as qualidades e defeitos do seu povo.
O deputado também resgata o escritor e sociólogo Gilberto Freyre, no prefácio do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, quando descreve a importância do futebol para a história contemporânea do Brasil. Segundo Freyre, “o esporte trazido da Inglaterra pelas elites se arraigou na população que tomava as cidades. Tornou-se um elo em comum para as massas. Mais do que isso, ajudou a quebrar barreiras sociais e raciais, nas arquibancadas e nos campos”. Ele identificou o futebol como protagonista em mudanças políticas, econômicas, sociológicas e antropológicas. “O que acontecia em campo e nas arquibancadas era influenciado pelos rumos do país e ajudava a reger o caminho”, enfatiza.
A matéria também pega a contribuição do jornalista Leandro Stein, cujo texto publicado no site Trivela, do UOL, mostra o futebol presente na literatura, no cinema, na dramaturgia e na música, além de ter sido reverenciado por grandes escritores brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Vinícius de Moraes, Ariano Suassuna, Luís Fernando Veríssimo, Fernando Sabino e João Ubaldo Ribeiro, entre outros.
O BAHIA E SUA TORCIDA
A justificativa mostra que o futebol e todos os elementos que o compõem se encaixam como um bem cultural imaterial. No Nordeste e na Bahia, o Bahia constrói ao longo dos anos uma história vitoriosa e identificada com os baianos. Bobô resgata um pouco da trajetória do clube, desde a sua fundação, passando pelo primeiro título, em 1959, suas glórias regionais, até o período mais recente, com a conquista do Brasileiro de 1988.
Ao falar da torcida, o deputado lembrou da recente revolução democrática que tomou conta do clube, com milhares de torcedores votando pela primeira vez para escolher o seu presidente. O documento revela que a “nação tricolor” é considerada uma das maiores do país, ficando em 12º lugar, com uma média de 3,4 milhões de torcedores.
Bobô resgatou ainda o artigo “Futebol, o patrimônio imaterial da Cidade Maravilhosa: o carioca e sua fome de gol”, onde Dan Gabriel D’Onofre, Juliana Gomes Barbosa e Luciana Fernandes mostram como a torcida se constitui em um bem cultural imaterial no contexto do futebol. O texto foi publicado na Revista Itinerarium, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
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