Uma homenagem carregada de simbologia. Assim foi, nas palavras do próprio homenageado, a entrega do título de cidadão baiano ao publicitário e fotógrafo Sérgio Guerra, idealizador da Fundação Salvador Negroamor. Proposta pelo deputado Fabrício Falcão (PCdoB), a sessão especial levou à Assembleia Legislativa da Bahia, na manhã de sexta-feira (dia 20), artistas, integrantes de entidades do movimento negro, do candomblé, e representantes de outros países, como o cônsul da Itália no Brasil, Giovani Pisanu, e o adido de defesa de Angola, Antônio Cândido.
A sessão, aberta pelas cantoras Jussara Silveira e Mariana de Moraes, neta do poeta Vinícius de Moraes, com a música Milagres do Povo, de Caetano Veloso – teve muitos momentos marcantes. Mas o ponto alto foi o discurso de Sérgio Guerra, no qual ele cobrou dos governantes e da sociedade o reconhecimento de que os negros esperam medidas de reparação pela "atrocidade histórica" que foi a escravidão.
"A escravidão é obra nossa", sentenciou Guerra ao falar na Assembleia. "E a sua ‘desinvenção’, a sua reparação, devia igualmente ser, por dever moral e determinação política, uma tarefa nossa. Podemos dizer que aqui, hoje, não há um só culpado pela escravidão e pela exclusão histórica do negro em nossa sociedade. Mas somos todos igualmente responsáveis pela correção do que a história teima em não corrigir, ou a faz de forma excessivamente lenta."
Para Guerra, os escravos foram libertados quando já não eram tão necessários, viáveis e lucrativos. Na época, o Brasil, acrescentou ele, começou a apostar na mão de obra livre, porém barata e mais qualificada, do imigrante europeu. "Pois é, meus amigos, essas pessoas que foram arrancadas de suas famílias, que foram comercializadas como mercadoria, que receberam uma liberdade tardia, não foram alvo nem lá no ato da Abolição, nem nos anos seguintes da nossa República, de nenhum plano, projeto ou programa nacional de reparação e reinserção na vida econômica e social do país."
As palavras de Sérgio Guerra foram ouvidas com absoluta atenção de todos no plenário também pela história do homenageado, que o habilita como um dos profundos conhecedores da história do povo africano. A partir de 1997, o fotógrafo e publicitário passou a viver entre Salvador e Luanda, convidado pelo governo de Angola para desenvolver um programa de comunicação para o país, que ainda se reestrutura depois de uma longa guerra civil.
Em suas constantes viagens pelo país africano, Guerra acabou por tornar-se um dos raros fotógrafos estrangeiros a registrar todas as 18 províncias angolanas, montando um acervo com cerca de 85 mil fotos. É autor de cinco livros de fotografia, como Parangolá.
O resultado das andanças de Guerra não só nas comunidades de Angola, mas também nos bairros da periferia de Salvador, resultaram primeiro na exposição Salvador Negroamor. Em moradias de gente humilde, terreiros de candomblé, feiras livres, locais de ocupação da guerra angolana, entre outros cenários que refletem a exclusão social, sua proposta, há mais de uma década, tem sido mostrar a situação do povo negro.
Depois, Salvador Negroamor foi transformada em Fundação Salvador Negroamor, que, em conjunto com instituições parceiras, proporciona formação cultural, social e política para mulheres, crianças e jovens negros, buscando incentivá-los a ocupar conscientemente seu espaço na sociedade. As comunidades do Calabar e da Mata Escura são beneficiadas por projetos de inclusão digital mantidos pela fundação. Já no bairro de São Marcos funciona uma escola de educação infantil e, no Lobato, foi criado um centro de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica.
Essas ações de Sérgio Guerra foram lembradas pelo deputado Fabrício Falcão, na sessão especial que contou também com a presença da vereadora Olívia Santana (PCdoB). Fabrício observou também que, apesar de ser natural de Pernambuco, foi a Bahia que Guerra escolheu como sua terra natal. Observação confirmada logo depois por Sérgio Guerra: "A Bahia me deu futuro e, mais do que futuro, passado, origem, pertencimento e paternidade."
REDES SOCIAIS