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Kátia Mattoso é homenageada pela Assembleia Legislativa

Publicado em: 11/04/2011 00:00
Editoria: Diário Oficial

Zé Raimundo (PT) louvou a profundidade da pesquisa da historiadora. Ele foi reitor da Uesc
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Em parceria com a Fundação Pedro Calmon, a Assembleia Legislativa lançou, na sexta-feira, por intermédio do presidente Marcelo Nilo (PDT), o Prêmio Nacional Kátia Mattoso de História. O lançamento integrou sessão especial em homenagem póstuma à historiadora, falecida em janeiro. Na ocasião, foi assinado protocolo de intenções entre a Fundação Pedro Calmon e a Assembleia Legislativa para a concessão anual do Prêmio Kátia Mattoso para trabalhos na área de história. Firmaram o documento o historiador Ubiratan Castro e Marcelo Nilo, dirigentes daquelas instituições.
A regulamentação desse prêmio foi apresentada no curso da sessão solene, já estando definidas todas as regras e prazos e que terão ampla divulgação nos próximos dias. A entrega da primeira versão desse prêmio ocorrerá no dia 8 de abril do próximo ano, data em que faria aniversário a historiadora agora homenageada. Caberá à Fundação Pedro Calmon a premiação em dinheiro – R$ 50 mil, ficando o Legislativo com a responsabilidade de editar e lançar livros com os trabalhos vencedores.
Esta sessão especial foi proposta pelo deputado Zé Raimundo (PT). Ex-prefeito de Vitória da Conquista, o petista é intelectual reconhecido na área de história (possui o título acadêmico de doutor) e foi também reitor da Universidade Estadual do Sudoeste. Ele informou que a iniciativa de realização da sessão, bem como da associação da Assembleia com a Fundação Pedro Calmon, aconteceu em atendimento de solicitações da comunidade acadêmica e dos muitos amigos que Kátia Mattoso deixou entre nós.
Em sua longa passagem pelo magistério e a pesquisa, a historiadora foi professora de cerca de 15 mil alunos e orientou cerca de 800 professores, bem como número igualmente amplo de funcionários e leitores de sua profícua obra. A sessão, portanto, enalteceu e relembrou o trabalho da professora que "prestou inestimável contribuição para os estudos históricos na Bahia, no Brasil e no mundo", em especial para a história social da escravidão, frisou o deputado Zé Raimundo.
Ao final dos trabalhos, foi exibido um depoimento prestado pela historiadora à TVUniversitária, em que ela própria explica a sua trajetória, desde a chegada ao Brasil, o casamento, influências e o trabalho que executou. Os estudos que ela realizou sobre a escravidão intensificaram-se quando da sua chegada à Bahia, em 1956. Kátia Mattoso era grega e teve a formação profissional completada na França.

ESTÍMULO

A dedicação de Kátia Mattoso à história nacional levou à criação, em 1988, da cadeira de História brasileira na Sorbonne (França), comandada por ela até a aposentadoria, em 1999. "A Bahia tem quatro grandes nomes na historiografia: Pedro Calmon, Luiz Henrique Dias Tavares, Kátia Mattoso e João Reis, componentes de uma constelação que provocou profunda revolução do estudo da história da Bahia", diz o antropólogo Luiz Mott.
Outra grande preocupação da professora foi com a formação de jovens, destaca o presidente da Fundação Pedro Calmon, Ubiratan Castro, para quem a melhor homenagem seria mesmo incentivar e estimular jovens historiadores. Criou-se, então, o Prêmio Kátia Mattoso, que irá destacar os melhores no mundo acadêmico brasileiro. Já a partir do ano que vem, serão laureados o melhor livro sobre história publicado no Brasil em língua portuguesa e as melhores teses de mestrado e doutorado.
Os trabalhos serão escolhidos por comissões especiais e específicas compostas por professores e doutores em história, sendo as teses publicadas pela Assembleia Legislativa dentro do programa editorial mantido pelo Executivo baiano em resgate e respeito à memória cultural baiana. Esta parceria foi saudada pelo deputado Zé Raimundo e pelo presidente da Fundação Pedro Calmon, que creditam à sensibilidade do presidente Marcelo Nilo mais este incentivo à cultura brasileira.

LANÇAMENTOS

O presidente do Legislativo reafirmou a sua disposição de continuar a incentivar a cultura de nossa gente, em especial no que tange à nossa história e cultura através do projeto editorial que executa, responsável só em sua gestão pela publicação de 52 livros, existindo previsão de seis outros títulos, até o início do recesso no mês de julho. Entre os trabalhos previstos, quatro volumes a respeito da história da Associação Comercial da Bahia, um romance do professor Guilherme Radel e o terceiro volume da história oral da Bahia coletada pelo saudoso professor José Calasans no Museu Eugênio Teixeira Leal.
Para Silvyo Queirós Mattoso, ex-marido da historiadora – também acadêmico – "são perfeitamente justas estas homenagens" patrocinadas pela Assembleia Legislativa e pela Fundação Pedro Calmon. Lembrou ainda que Kátia "entendeu o sucesso da organização social baiana atual, sendo reconhecida por várias dezenas de ex-alunos, cujas presenças são maciças em todas as homenagens que lhes são feitas. Isso certamente a torna merecedora, sendo o mais importante de tudo o amor que mantinha pelos seus alunos e o amor que seus ex-alunos lhe mantém ainda hoje."
As memórias de Silvyo Queirós remontam à chegada do casal à Bahia, na década de 50, quando Kátia Mattoso ficou "entusiasmada com Os Sertões (livro de Euclides da Cunha) e passou a entender que o Brasil é uma mistura bem sucedida de povos e de diferentes histórias". A partir daí , ela procurou, ainda, "entender melhor a sociedade baiana e, ao iniciar os estudos sobre o ciclo da cana-de-açúcar, ficou encantada, porque isso a permitiu ir à origem da miscigenação africana, tão bem sucedida na Bahia."
Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia e professora emérita da Universidade de Paris – Sorbonne, Kátia Mattoso é autora, dentre outras obras, de Ser Escravo no Brasil, e Bahia Século XIX – Uma Província no Império. Em 2010, ela doou toda a sua biblioteca particular à Universidade Federal da Bahia. Era considerada pela comunidade acadêmica uma das maiores especialistas em história da escravidão no Brasil, especialmente após o período vivido na Bahia. Esta sua trajetória foi relembrada sexta por todos os palestrantes da sessão especial e enaltecida pelos amigos e admiradores que compuseram o plenário.

EMOÇÃO

A sessão especial foi aberta pelo deputado peemedebista Leur Lomanto Júnior e presidida por Zé Raimundo (PT). Compuseram a Mesa dos trabalhos, ainda, o chefe de Gabinete da Secretaria da Educação e representante do governador Wagner, Paulo Pontes; o presidente da Fundação Pedro Calmon e representante do secretário da Cultura, Albino Rubin, Ubiratan Castro; a filha da homenageada, Tereza Mattoso; a Cônsul Honorária da Grécia, Mirian Souza; a presidenta do Instituto Geográfico e Histórico, Consuelo Pondé de Sena; os professores Everton Sales e João Reis (esse ex-aluno de Kátia Mattoso); o diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, João Carlos Salles Pires da Silva, e o ex-governador Waldir Pires.
Em seus discursos, os professores Everton Sales e João Reis exaltaram a qualidade do trabalho de pesquisa acadêmica que ela desenvolveu. Ao fazer um emocionado discurso, o ex-governador Waldir Pires lembrou a convivência que teve com a historiadora na época em que estava na chefia do Executivo, bem como o preparo que ela tinha de Ciência Política. Na sessão falaram ainda Ubiratan Aguiar e a filha da homenageada, que não conteve as lágrimas ao falar com ternura da mãe.



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