Devido ao grande comparecimento de autoridades, representantes da sociedade civil organizada e de casas de apoio de todo o estado, a audiência pública promovida pela Comissão de Saúde e Saneamento, que normalmente acontece na sala José Amando, ontem foi transferida para o Plenário da casa e ganhou ares de sessão especial. “A minha idéia é que nesta casa de leis e debates possamos, com este evento, chamar a atenção da sociedade para este câncer social que vem ceifando vidas. Proponho a criação de uma frente parlamentar de prevenção e combate ao uso do crack”, enfatizou o deputado petista Isaac Cunha, proponente da audiência, que debateu a situação dessa droga no estado.
Para o secretário de Segurança Publica do Estado, César Nunes, 80% dos homicídios estão relacionados ao crack, uma vez que o seu consumo está diretamente associado ao crime. O secretário explanou ainda sobre a origem da droga. Segundo ele, como no Brasil não existe plantação da coca, é preciso ter uma atuação mais enérgica nas fronteiras, pois, nos últimos anos, houve uma super produção da pasta base da coca, o que fez, seguindo a lei de oferta e procura, o preço ser reduzido, atingindo diretamente parcelas menos favorecidas economicamente da população, que puderam ter acesso à droga.
Nunes apontou três pilares que devem dar sustentabilidade às ações pensadas na tentativa de coibir o avanço desta “epidemia social”. 1– Repressão qualificada, inclusive com medidas diplomáticas em acordos com países fronteiriços; 2 – Prevenção, com palestras escolares e 3 – Recuperação, ampliando e fortalecendo as atuações das casas de apoio. “Enfim, este problema só terá solução se tivermos coragem de encarar, e isso nós já começamos a fazer”, concluiu Nunes.
REFLEXÃO
Provocando ainda mais a ampliação do debate, o psiquiatra e coordenador do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, Cetad, Antônio Nery, questionou o foco da audiência. Para ele, que destacou trabalhar com esta questão há muito tempo, não deve existir o interesse de debater o crack, nem promover a demonização dessa droga, é necessário de fato que se discuta a desorganização social, o despreparo das escolas públicas, em suma, “a quebra de vários pactos sociais”. “Não espero que ninguém concorde comigo, mas espero que todos tenham ouvidos para serem convencidos de que, quando alguém busca droga, está, na verdade, enfrentando o fracasso social e cultural; e, neste fracasso é preciso trabalhar o ser humano e não o objeto”, ressaltou Nery.
Já para o pastor Fábio Macarani, especialista de políticas públicas de gestão governamental do estado, infelizmente existe a necessidade de se discutir esta questão, uma vez que passaram a existir e a serem presos “os netinhos e as vovozinhas do crack”. Ele defendeu a valorização da família, da educação com ampliação de oportunidades. “Quem vai salvar nossa sociedade do colapso somos nós que sonhamos com um mundo melhor”, frisou.
RECUPERAÇÃO
Em meio a inúmeras explanações e depoimentos, o som dos tambores que rufaram no plenário desta vez não traziam consigo, apenas, a representação de um ritmo nem de uma cultura. Os “timbaleiros de Cristo”, grupo de percussão da Fundação Dr. Jesus, apresentaram-se e encantaram o público, representando a possibilidade concreta de recuperação e inserção social oferecidas a muitos jovens pelas instituições de apoio, que foram felicitadas e parabenizadas em vários pronunciamentos.
Neste sentido, Cida Tripodi, representante da Secretária da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, defendeu a implementação de tratamentos que estimulem a reinserção social. Para isso, ela apontou alguns direcionamentos que perpassam pela capacitação específica com especializações e mestrados, por mapeamento de programas, projetos e serviços governamentais e não governamentais e pela criação e/ou fortalecimento dos conselhos municipais sobre drogas.
Para o parlamentar comunista Álvaro Gomes, presidente da comissão, o combate a drogas e a violência perpassa pela “Paz com justiça Social”. “Quase todos os assassinatos estão relacionados a problemas econômicos. Pode-se colocar um policial para cada pessoa que não vai resolver. Ou se tratam as causas ou não vamos resolver o problema das drogas”.
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