A imensa população afrodescendente da Bahia vem numa luta incansável procurando seus espaços para diminuir a desigualdade social que ainda predomina no estado. E uma das batalhas mais disputadas pelos diversos movimentos negros diz respeito à inclusão dessa população nos meios de comunicação. Ontem, às 10 horas, na Sala das Comissões Herculano Menezes, no prédio sede da Assembleia Legislativa, a Comissão da Promoção da Igualdade, presidida pelo deputado Bira Corôa (PT), debateu o seguinte tema: Espaço Alternativo de Comunicação para o Povo Negro.
A audiência reuniu profissionais da imprensa e de entidades da sociedade civil, universitária e partidária, com o objetivo principal de debater a criação de meios alternativos de comunicação sob o domínio de afrodescendentes. Ficou comprovado que a imprensa em geral, em todo o país, ainda prioriza profissionais que não pertencem à população negra, principalmente as emissoras de TV.
A Bahia não fica fora dessa realidade, apesar de ser a cidade de maior população negra. Por conta disso, profissionais afrodescendentes criaram algumas organizações e entidades de mídias alternativas que conseguem colocar em pauta vários temas que denunciam essa situação. Como exemplos, podem ser destacados o Instituto de Mídia Étnica, o Correio Nagô e a TV Servidor, dentre outros.
O deputado Bira Corôa considera que a discriminação racial também é bastante presente e as novas políticas de ações afirmativas construídas de maneira mais afetivas nos atuais governos existem para reparar esse problema: "Precisamos nos reconhecer também nos meios de comunicação e na imprensa em geral. Os negros ainda lutam para ocupar esses espaços na grande mídia tradicional."
O jornalista André Luís, da TV Pelourinho, fez uma explanação dos objetivos conquistados pela ONG que dirige na formação de jovens negros que são capacitados para produzir, preparar roteiros e trabalhar em áudios, nos órgãos de comunicação. A TV começou a funcionar em 2007, no próprio Pelourinho, e já tem parcerias com as TVs Educativa e Bahia.
DISCRIMINAÇÃO
O professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e coordenador da campanha Afirme-se, Fernando Conceição, reconheceu o valor da internet nesse processo de denúncia da discriminação racial nos meios de comunicação, mas achou que somente com essa fonte de informação, o processo fica muito distante da realidade atual. "Isso é uma visão capitalista que todo mundo tem acesso. Porém, o mundo real nos mostra questões políticas essenciais, como falta de hospitais, falta de terra para o homem humilde do campo, entre outras necessidades. Os debates pela internet, entretanto, confirmam a importância da mesma, pois, em todo o mundo, os movimentos negros lutam por maiores espaços na comunicação", disse o professor.
Ao final da audiência, o deputado Bira Corôa lamentou que, atualmente, as rádios comunitárias continuem sendo discriminadas, mas não escondeu sua decepção pela apropriação dos meios de comunicação pelo sistema capitalista, cultura essa praticada há muitas décadas: "Reconheço que a imprensa não é o quarto poder em termos constitucionais, mas é em termos institucionais. O sistema capitalista se apoderou dos meios de comunicação, pois desde o Império percebeu isso. O enfrentamento a esse sistema tem que ser coletivo, as instituições que possuem papel de grande importância precisam estar unidas. A estrutura de comunicação montada no país é branca e se afirma como branca. Precisamos nos aprofundar mais neste assunto", concluiu o petista.
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