MÍDIA CENTER

Sessão especial homenageia os negros evangélicos da Bahia

Publicado em: 06/11/2009 00:00
Editoria: Diário Oficial

Os trabalhos foram comandados pelo deputado Ivo de Assis (PR), propositor do evento
Foto:

A Assembleia Legislativa realizou ontem sessão especial que pode se transformar em um marco "da nossa guerra contra a desigualdade e intolerância religiosa". As palavras são do deputado Ivo de Assis (PR), propositor do evento, que teve como principal objetivo inserir os negros evangélicos no movimento negro baiano, hoje muito identificado com as religiões de matriz africana. Em todo o país, calcula-se que existam 14 milhões de afrodescendentes cristãos não-católicos.
Os pronunciamentos de Ivo de Assis, ao longo da sessão, deixaram claro que seu objetivo era combater a discriminação, não só racial, mas também a religiosa. "Tive uma grande dificuldade nesta Casa por conta disso", declarou, lembrando já ter sido vaiado em sessões voltadas para debater a situação do negro, por ser pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. "O que ele faz aqui?", chegou a ouvir na ocasião.
Para debater o assunto, o plenário recebeu autoridades que militam na Justiça, a exemplo do promotor Almiro Sena, do juiz de paz Ailton Borges e de Silvia Cerqueira, presidente da Associação Nacional de Advogados Afrodescendentes (Anaade) e membro da OAB; na política, a exemplo dos deputados Eliedson Ferreira (DEM), Isaac Cunha (PT), os vereadores Valdenor Cardoso e Isnard Vasconcelos, além do secretário municipal da Reparação, Ailton Ferreira.
O professor Manasses foi convidado para dar uma contextualização histórica ao tema. Contavam-se também inúmeros pastores e fiéis, que lotaram plenário e galerias. Além dos pronunciamentos, houve apresentação teatral e de um vídeo. Mas nada para distrair: o grupo capoeira encenou as discriminações que os discursos denunciavam e foi bastante ovacionado.

ORAÇÃO

A sessão foi aberta pelo presidente Marcelo Nilo (PDT), que promoveu a composição da mesa e convidou a todos para ouvir o hino nacional. Em seguida, o bispo Gutemberg, da Iurd, fez uma oração de abertura. Ivo de Assis ocupou a tribuna para dizer que "a ideia de criar esta sessão foi para mostrar a Bahia que os negros desta terra, além de seus ricos e belos costumes, também têm nos seus corações sofridos e marcados a presença de Deus".
"Agora nossa principal luta é contra a desigualdade que, em pleno século XXI, com a globalização, ainda ouvimos falar sobre essa tal discriminação", definiu o parlamentar. Ele disse que a guerra a ser travada para inserir os evangélicos como representantes qualificados para debater a situação do negro "não é uma luta nossa, mas sim de Deus". Ivo de Assis defendeu a igualdade para todos, o respeito às religiões e conclamou a união para buscar grandes conquistas, como ensino bom para todos, reconhecimento dos negros da periferia e que os jovens não sejam mais objetos das estatísticas policiais.
O secretário Ailton Ferreira disse que sua pasta foi formada com representantes tradicionais do movimento negro, o que não incluía os evangélicos. "Para quebrar o paradigma que encontrei, procurei me aproximar deste segmento", disse, avaliando que "é uma incoerência uma secretaria de inclusão excluir em sua composição". Além disso, concluiu, os evangélicos são organizados. "O racismo não nos pergunta qual a nossa fé", argumentou, lembrando que o deputado federal bispo Marinho teria dito a ele que não frequentava a secretaria porque "parece que não gostam de mim".
Quase que parafraseando Euclides da Cunha em relação aos sertanejos, Isnard Vasconcelos disse que o negro é mais forte do que qualquer outra raça, e que isto garantiu a sua sobrevivência diante das adversidades. Eliedson, por sua vez, foi direto ao tema e reclamou que muitos movimentos não concedem o direito ao negro de ter liberdade de escolher sua religião e mistura raça com fé. Ele foi bastante aplaudido quando exclamou que qualquer um pode escolher sua religião" e que o movimento iniciado ontem vai crescer porque os negros evangélicos são muitos.
Silvia Cerqueira explicou que o racismo e a pobreza estão intimamente ligados e que, por isso, é preciso que o Estado se faça presente em ações educativas, programas educacionais de todas as religiões. Ela avalia que hoje o Estado se faz presente junto à religião católica e, quando se tratam de políticas afirmativas, sempre são realizadas junto aos terreiros de candomblé.



Compartilhar: