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AL concede o título de cidadão baiano para Abdias Nascimento

Publicado em: 05/06/2009 00:00
Editoria: Diário Oficial

A história de luta de Abdias Nascimento foi destacada pelo secretário Valmir Assunção
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Abdias Nascimento é baiano. O artista plástico, escritor e dramaturgo nascido em Franca, São Paulo, foi homenageado ontem, pela Assembleia Legislativa, com a cidadania honorífica baiana, durante alentada sessão especial. A iniciativa da Casa é um reconhecimento aos relevantes serviços prestados à comunidade afrodescendente do Brasil e especialmente da Bahia, na retomada da consciência e auto-estima do povo negro.
A proposta do título foi do secretário do Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, Valmir Assunção, no exercício do mandato parlamentar, em 2005, e evidencia o nome do "maior ícone vivo da luta antirracista no Brasil", como diz o texto do projeto de resolução aprovado por unanimidade. Mesmo militando desde o início da década de 30 do século passado, Abdias é, até hoje, menos conhecido no Brasil do que líderes negros que se destacaram em seus países, como Martin Luther King e Nelson Mandela.
Do alto dos seus 95 anos, Adbias chegou acompanhado de Valmir e a esposa Elizabeth e foi recepcionado na rampa pelas dançarinas e percussionistas do grupo afro Bankoma, de Portão. Em resposta, ele vibrou seu cajado no ar, ato que repetiu ao ser chamado pelo presidente Marcelo Nilo (PSDB) para ocupar o lugar na mesa do trabalhos e ser ovacionado efusivamente pela plateia, que lotou o plenário e as galerias.

REPRESENTATIVIDADE

A composição da mesa já demonstrava a importância da ocasião: dois secretários estaduais (além de Valmir, Luiza Bairros, da Promoção da Igualdade), o ex-governador Waldir Pires; o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito, Mãe Stella de Oxóssi, representando as religiões de matrizes africanas; a ouvidora geral da Defensoria Pública, Anhamona de Brito; o secretário adjunto da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade da Presidência, Elóis Araújo; o promotor de Justiça Almiro Sena, o presidente da Banda Ilê Aiye, Vovô do Ilê; Jonas Paulo, presidente do PT estadual; e Alexandre Brust, secretário geral do PDT da Bahia.
Vários parlamentares se fizeram presentes, a exemplo de Bira Corôa (PT), Reinaldo Braga (PSL), Aderbal Caldas (PP) e Roberto Carlos (PDT), mas nenhum deles se pronunciou na tarde de ontem. O protocolo foi quebrado e a homenagem a Abdias foi feita por Valmir, Waldir, Luiza e Elói. Como não poderia deixar, a melhor homenagem que fizeram foi pronunciar discursos fortemente políticos em defesa da igualdade de oportunidades e contra a discriminação.

EMBARGO

Abdias quase não falou. Chamado a se pronunciar, logo após receber o título, ele explicou estar "impossibilitado física e emocionalmente de fazer um discurso à altura que esta Assembleia merece". Mesmo assim, tentou continuar, mas sucumbiu as forças que lhe embargaram completamente a voz e o fez romper em lágrimas: "Muito obrigado", ergueu a voz, em retribuição a todos que, nesse momento, o aplaudiam de pé. O momento comoveu também Nilo, que apertou o braço do homenageado e quase em confidência, fora do microfone, disse: "meus parabéns, de coração".
A sessão foi repleta de música. Além da chegada ao som da Banda Bankoma, os trabalhos foram abertos com o Hino ao Dois de Julho, executado pelo tenor soldado Lima acompanhado pelo tecladista sargento Josué. Após a concessão do título, os alunos da Escola do Olodum executaram antigos sucessos, seguidos pela Banda Erê, do Ilê Ayiê. Juntos, o Olodum e o Erê fizeram o plenário cantar o Hino do Congresso Nacional Africano (CNA).

BIOGRAFIA

Abdias Nascimento nasceu em uma família coesa, carinhosa e organizada. Apesar de pobre - era filho da doceira Josina e do músico e sapateiro Seu Bem-Bem – diplomou-se em contabilidade com 15 anos. Ainda adolescente, engaja-se na Frente Negra Brasileira e inicia luta contra a segregação em estabelecimentos comerciais de São Paulo. Tenta criar um movimento de teatro negro e, não encontrando eco na capital paulista, segue para o Rio de Janeiro, onde funda o Teatro Experimental Negro, entidade que patrocina a Convenção Nacional do Negro, entre 1945 e 46, e o Congresso Nacional, em 1950.
Militante do antigo PTB, ao lado de Leonel Brizola, se exila após o golpe de 1964, atuando na formação do PDT. Foi por esse partido que se tornou o primeiro deputado federal negro do país, eleito em 1982, elegendo-se senador pelo Rio de Janeiro, já na década de 90. Seus mandatos sempre foram dedicados ao combate ao racismo e promoção da igualdade e foi nessa condição que foi convidado pelo então governador Brizola para assumir a Secretaria de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (1991-94). Mais tarde, foi nomeado primeiro titular da Secretaria Estadual de Cidadania e Direitos Humanos (1999-2000).



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