Os índios pataxós Ha-Hã-Hãe ganharam mais um aliado na luta pela demarcação definitiva das suas terras, decisão que deve ser avaliada pelo Supremo Tribunal Federal, em meados de junho. Atendendo a um convite da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública, o músico e compositor Carlinhos Brown participou ontem, no plenarinho da AL, de uma reunião com lideranças indígenas e com o deputado Yulo Oiticica (PT) com o objetivo de atrair o artista para o movimento. Cerca de quatro mil pataxós reivindicam uma área de 54 mil hectares na região Sul, onde hoje estão instaladas 13 fazendas.
Segundo Yulo, os membros da Comissão de Direitos Humanos observaram que o processo envolvendo a demarcação da reserva Raposa do Sol teve uma grande repercussão midiática e o caso Pataxó é semelhante, mas por se tratar de um conflito localizado na Bahia, talvez não ganhe o mesmo destaque. Por conta disso, eles decidiram convocar autoridades religiosas, políticos envolvidos com a questão dos direitos humanos e artistas sensíveis às causas comunitárias para que, no dia do julgamento em Brasília, seja feito um ato, em frente à sede do STF, com o objetivo de chamar a atenção da sociedade para a necessidade de se resolver a questão das terras Pataxó na Bahia.
O deputado petista informou que a AL já promoveu duas audiências públicas sobre o tema e que o processo examina a nulidade da concessão, oferecida pelo governo do Estado, dos títulos de terra que fazem parte da área reivindicada pelos pataxós. Segundo Yulo, o processo estava parado há 26 anos e, nesse período de intensos conflitos envolvendo índios e fazendeiros, 20 lideranças indígenas foram mortas, inclusive o índio Galdino, que foi brutalmente assassinado em Brasília.
DEBATE
Yulo disse que, com sua trajetória de luta pelos direitos humanos, Carlinhos Brown tem a possibilidade de influenciar a opinião pública e fomentar a discussão sobre a condição dos índios na Bahia pela forma coerente com que trata os temas relativos aos direitos humanos. "Em nome de todos, agradeço a sua disponibilidade", afirmou.
Yulo informou também que apresentou à Mesa Diretora da AL projeto de resolução que concede o Titulo de Cidadão Benemérito da Liberdade e da Justiça Social João Mangabeira a Carlinhos Brown. "Só duas pessoas receberam esse título e não tenho dúvida que milhares de cidadãos baianos e do mundo estão fazendo parte dessa homenagem. É o reconhecimento ao artista que cresceu na sua atividade e não esqueceu de que lado está", disse.
Por sua vez, Carlinhos Brown destacou que é preciso mostrar a realidade para a população e a realidade é que a questão indígena não foi resolvida no país. "Não entendo de leis, mas sei reconhecer quando se está fazendo justiça. Está na hora de ser humilde e aprender com os índios, buscar a essência do povo brasileiro a partir das suas origens. Nossos filhos vivem no computador e não têm a oportunidade de conhecer a riqueza da cultura de um povo que vive em Porto Seguro. Eles estão indo para Disneylandia", afirmou o compositor.
Brown afirmou que vai se engajar na luta dos pataxós, mas que gostaria que essa necessidade não existisse. "Não é uma honra colaborar com outros seres humanos. Os índios são tratados como enfeites no Brasil, mas eles têm um modo de vida que é necessário que seja compreendido", afirmou, ressaltando que o país tem terras demais e as pessoas que poderiam cuidar delas estão sendo expulsas. "Não sou cacique, nem mesmo guerreiro. Nessa causa sou um servidor para que as mudanças venham de uma forma sensata pelo amor e sem violência", completou.
A estudante de direito da Ufba e liderança indígena Patrícia Pataxó agradeceu "ao grande cacique do Candeal, que abriu um brecha na sua concorrida agenda para nos ouvir". Ela afirmou que a mídia não divulga o que não é do interesse da burguesia e prefere varrer a vergonha para debaixo do tapete. "Essa terra é um território sagrado. Precisamos dela para continuar a viver e desenvolver a nossa cultura. Não podemos abrir mão do direito a nossa terra, que foi usurpada", reiterou.
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