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Cinema baiano em destaque na AL

Publicado em: 08/05/2009 00:00
Editoria: Diário Oficial

A petista Neusa Cadore disse que é importante registrar o trabalho pioneiro de Roberto Pires
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A história do cinema baiano foi o foco da sessão especial que a Assembleia Legislativa realizou ontem, a partir das 10h, por solicitação da deputada Neusa Cadore (PT). O ato comemorou o transcurso do cinquentenário do filme "Redenção", primeiro longa-metragem realizado na Bahia, dirigido pelo cineasta Roberto Pires. Foi maciça a presença dos cineastas baianos, desde os pioneiros, companheiros Pires da época do celulóide, ao expoentes novos da era digital.
A deputada petista disse que a comemoração ofereceu uma oportunidade não apenas para registrar o reconhecimento do trabalho pioneiro, celebrando a história daquele que deu início à produção cinematográfica baiana, mas ainda para análise da conjuntura atual. Ela trabalha a possibilidade de criar políticas públicas específicas para o cinema, a exemplo do que está sendo feito com o teatro, com a dança e com a música.
Os trabalhos duraram pouco mais de duas horas sendo o clima descontraído, pois a imensa maioria das 150 pessoas que participaram da sessão especial era formada por pessoas do meio cinematográfico, técnicos, diretores, fotógrafos, artistas, integrantes de cineclubes, professores e críticos de cinema e estudiosos. Esta sessão foi viabilizada graças a um acordo das lideranças partidárias que transformaram a sessão ordinária matutina da Casa em especial.
O presidente do Legislativo, deputado Marcelo Nilo, não compareceu por conta de viagem anteriormente agendada para São Paulo, onde participa até amanhã de um encontro do Colégio dos Presidentes de Assembleias Legislativas que tem como tema a crise internacional e o repactuamento das dívidas estaduais para com o governo federal.

PIONEIRISMO

No seu discurso, Neusa Cadore ressaltou que Roberto Pires e seus contemporâneos não se intimidaram com as dificuldades da época e levaram adiante o lema: "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão". Para ela, apesar de sucessos posteriores, é o filme "Redenção", que traz o mérito de sinalizar o ponto de partida da ousadia e coragem destes cineastas, produtores, roteiristas e editores de cinema que fizeram e fazem parte do cinema baiano.
Para explicar um pouco mais sobre a vida e carreira de Roberto Pires, seu filho Petrus Pires apresentou durante a sessão o curta-metragem "Artesão dos Sonhos", dirigido por ele e por Paulo Hermida, que aborda parte da vida do cineasta homenageado. Com relação ao longa-metragem "Redenção", Petrus afirmou que esta sendo feito um trabalho para recuperar uma cópia do filme a fim de difundir a obra na sociedade.

PERSONALIDADES

A Mesa de honra dos trabalhos representou bem o cinema da Bahia, sendo integrada pela proponente da sessão, Neusa Cadore (PT), e por sua correligionária Fátima Nunes, além do crítico e professor da Ufba André Setaro, pelo diretor presidente do Irdeb, Pola Ribeiro, que representou o secretário da Cultura, Márcio Meireles, e assegurou aos presentes a obtenção dos recursos necessários à recuperação técnica dos originais de Redenção.
Na Mesa ainda o jornalista Aléxis Góis, autor do sexto volume, dedicado a Roberto Pires, da coleção de perfis que a Casa publica sobre personalidades baianas, "Gente da Bahia"; o cineasta Guido Araújo, organizador e promotor da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, e o cineasta Oscar Santana, companheiro de Pires e Glauber Rocha, responsável pela Sani Filmes, empresa com 48 anos no mercado de cinema da Bahia. Presente também na mesa dos trabalhos Orlando Senna, um baiano que dirigiu a área de Audiovisual do Ministério da Cultura e que também dirigiu a TV Brasil; Petrus Pires, filho de Roberto e também cineasta; o professor e pesquisador Eduardo Borges.
Todos os oradores registraram o pioneirismo, a qualidade artística, inventividade do trabalho de Roberto Pires e a falta de um diagnóstico para o declínio da atividade cinematográfica na Bahia, onde na última década voltaram a ser rodados filmes, cerca de dez, mas que simplesmente não conseguem público para suas exibições.
Segundo o professor da UNEB e pesquisador de cinema, Eduardo Borges, esse encontro com a história é importante pois a Bahia precisa saber da existência desses baianos que fizeram o cinema se tornar uma grande causa. "Nós cineastas temos certezas de que dias melhores virão, e esperamos que o governo salve o que resta da competência baiana do cinema". O produtor Oscar Santana completou: "Roberto Pires era um grande cineasta artesão e inventor".

NOVA LENTE

Para o cineasta Orlando Senna, Roberto Pires além de criar o cinema baiano, furou o bloqueio técnico da indústria de cinema norte-americana ao inventar a lente anamórfica. Ele explicou com detalhes como esse avanço técnico foi obtido, a partir de fotogramas (cinco) surrupiados do longa-metragem de Hollywood Ben-Hur, um sucesso mundial rodado em cinemascope.
Como a família de Roberto Pires era dona de uma ótica, ele trabalhou em dezenas de modelos (testados numa enorme tela pregada no teto de um sobrado na rua Chile) até a obtenção do efeito desejado. Só aqui e nos Estados Unidos se conseguia rodar para tela grande: "Roberto foi uma pessoa além do seu tempo". Do mesmo modo, o cineasta e diretor do IRDEB- Instituto de Radiodifusão da Bahia, Pola Ribeiro, afirmou que falar de Roberto Pires é falar de um homem que atuou tanto nos bastidores quanto nas telas do cinema, sempre associando a paixão com a invenção.
Já para o crítico de cinema André Setaro, Roberto Pires, além de inventar o cinema da Bahia, tem o relevo histórico de demonstrar ser possível fazer cinema na Bahia, despertando essa vontade em outras pessoas. "O papel de Roberto Pires para o cinema baiano foi de maior importância e de orgulho para todos nós", comentou o cineasta Guido Araújo, que em sua fala emocionada desceu a detalhes da imensidão dos sonhos sonhados e realizados por aqueles jovens da Bahia no final dos anos 50. Lembrou também que Redenção e a Grande Feira (também de Roberto Pires) foram as maiores bilheterias da Bahia em 1959 e 1961.

LIVRO

Ao final da sessão especial foi lançado o livro "Roberto Pires: O Inventor de Cinema", do jornalista baiano Aléxis Góis, publicado pela Assembléia Legislativa. Segundo o autor, esta obra tem por finalidade contar, assim como nos filmes, uma parte da história do cinema na Bahia. "Somos capazes de produzir cinema com a nossa linguagem e visão, além daquela imagem estereotipada", finalizou ele.



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