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Trabalhadoras domésticas são as mais atingidas por crise

Publicado em: 30/04/2009 00:00
Editoria: Diário Oficial

Creuza Oliveira avalia que trabalho doméstico não gera riqueza, mas traz bem-estar para patrão
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Levando em consideração os efeitos da crise econômica mundial e a chegada do Dia da Doméstica, celebrado em 27 de abril, a Comissão de Direitos da Mulher promoveu uma audiência pública a fim de debater o impacto dessa crise na vida das mulheres trabalhadoras. Segundo a presidente Neusa Cadore (PT), este assunto está sendo pautado em muitos espaços e precisa ser compreendido pela sociedade, pois ele se reflete em muitos aspectos sobre a vida das trabalhadoras domésticas. Ainda segundo a deputada, os dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelam que, mais uma vez, as trabalhadoras domésticas são as mais atingidas pela crise, sobretudo na América Latina e no Caribe. “A corda sempre parte para o lado mais fraco”, relata a deputada Eliana Boaventura (PP).
Para Ticiana Studart, da Rede de Economia e Feminismo, é preciso mudar o mundo para mudar a vida das mulheres e por isso se tem buscado discutir o reflexo do mundo sobre elas. Ticiana acredita que o trabalho que foi assimilado pela mulher passou a ser desvalorizado monetariamente e socialmente. Além disso, “em casos de necessidade a mulher é a primeira a ser cortada do orçamento”, comentou. Ainda de acordo com ela essa crise é um modelo de reprodução de uma sociedade capitalista e para que essa situação não piore é importante que não haja mais redução nos serviços ofertados pelo Estado.
“A situação é alarmante”, opina a presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas, Cleusa Maria, ao afirmar que esse é um momento de reflexão sobre a situação dos trabalhadores domésticos. Cleusa aproveita a situação para expor um problema que tem atingido boa parte dos trabalhadores domésticos que procuram o sindicato. Segundo ela, em muitos casos, os patrões têm recolhido o INSS dos seus funcionários, mas não têm repassado para o governo, e eles só descobrem que o patrão não assinou sua carteira quando vão procurar um serviço médico. De acordo com Neusa Cadore, cerca de 70% dos trabalhadores domésticos não tem carteira assinada. Além disso, “não temos condições de atender e se deslocar para o interior, pois no sindicato não recebemos salários e alternamos o serviço de lá com o nosso trabalho doméstico”, ressaltou Cleusa Maria.  
“Precisamos mudar o quadro do nosso país, pois isso é uma falta de respeito com a mão-de-obra feminina e nós queremos igualdade para assumir e receber a mesma valorização que o homem”, exclamou a deputada Ángela Souza (PSC). Neste mesmo sentido, a presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores Domésticos, Creuza Oliveira, comenta que o trabalho doméstico não gera riqueza para o patrão, entretanto garante a ele segurança, bem-estar e limpeza. “Esse trabalho é muito importante, pois, enquanto nossos patrões trabalham, nós cuidamos das casas deles”, explicou. Para Madalena Noronha, que é coordenadora técnica do Ingá, a mulher negra e semi-analfabeta representa a maioria dessas trabalhadoras domésticas. Para Fátima Nunes (PT), o povo baiano é muito passivo e espera que as soluções venham, “mas para um melhor resultado é preciso debater essa força nos mais longínquos lugares da Bahia”, opinou.

CRISE

O doutor em ciências políticas e professor titular do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, Renato Dagnino, explicou que essa crise origina do mercado financeiro central mas não é uma crise financeira, e sim de globalização capitalista. “Essa crise tem a ver com o desemprego e com os baixos salários nos países periféricos”, explicou. Segundo o professor, os baixos salários desses países se refletem numa mão-de-obra barata visando à exportação para os países desenvolvidos. A partir dos anos 70 e 80, o fluxo de mercadoria aumentou muito, e “o que começou a acontecer foi que os trabalhadores dos países centrais já não têm mais renda para bancar seus consumos, levando a uma crise econômica”, ressaltou. Para Renato Dagnino, essa crise é amplificada pela globalização e pela interpenetração dos mercados, entretanto para ele a questão é mais complicada do que simplesmente uma crise econômica. “Essa situação nos obriga a repensar sobre o padrão de capitalismo brasileiro”, finalizou o professor.



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