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Assembléia antecipa debate sobre a retomada do programa nuclear

Publicado em: 12/12/2008 00:00
Editoria: Diário Oficial

Proponente da sessão, o deputado comunista Álvaro Gomes procurou apresentar os prós e os contras relativos à energia nuclear
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A Assembléia Legislativa antecipou ontem o debate nacional sobre a retomada do programa nuclear brasileiro, que deverá ser anunciado nos próximos dias pelo presidente Lula. Em sessão especial proposta pelo deputado Álvaro Gomes (PCdoB), foram reunidas personalidades do cenário energético, tanto no setor de produção como de planejamento e acadêmico. Estiveram presentes também o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Ildes Ferreira, e representantes dos secretários da Indústria, Comércio e Mineração e do Meio Ambiente. No centro das atenções, a perspectiva de instalação de duas usinas nucleares no Brasil, uma delas na Bahia.
Ao abrir a sessão, Álvaro procurou expor a demanda crescente de energia que o Brasil apresenta, com um aumento médio de 3,5% ao ano até 2030, em contraste com a escassez de recursos e os impactos ambientais provocados pelas fontes não-renováveis. Ele ressaltou que, do ponto de vista nuclear, existem três riscos que se devem considerar: o de acidentes como o de Chernobyl; o armazenamento do lixo radioativo; e o da proliferação deste tipo de recurso propiciar a produção de armas nucleares.

PRÓS E CONTRAS

A partir da exposição de Álvaro, em que se procurou colocar prós e contras, o que se viu foi praticamente um "samba de uma nota só", em que todos os expositores se referiram à alternativa nuclear como uma fonte segura, limpa, eficaz, ambiental e economicamente mais vantajosa para o país. A exceção ficou por conta de Eduardo Mattedi, representante do secretário Juliano Matos, da Secretaria de Meio Ambiente. Ele disse que "se chegarmos a instalar uma usina nuclear é porque não tivermos sucesso em relação ao desenvolvimento tecnológico neste estado". Considerando o urânio enriquecido um combustível muito perigoso, ressaltou que a Constituição do estado veda a instalação de usinas desta natureza.
Como alternativa, ele citou o projeto de aproveitamento eólico entre Caetité e Sobradinho, por exemplo. Presente na platéia, o líder do grupo Gamba, Renato Cunha, reclamou da composição da Mesa, quase toda pró-energia atômica, e ouviu de Álvaro que todos os segmentos de interesse foram convidados, mas que não havia qualquer representante ambientalista quando da composição da mesa dos trabalhos. Nenhum outro ambientalista se manifestou.
Em voz serena e pausada, coube à assessora técnica da Nuclebrás/Eletrobrás Olga Simbalista o pronunciamento mais longo e minucioso da sessão. Para ela, a energia nuclear "pode ser uma opção tão importante quanto necessária", referindo-se à demanda crescente de energia, às carências básicas da população brasileira, mormente nordestina, e à pouca disponibilidade de recursos. Ela ressaltou, no entanto, que "a hidroeletricidade é uma vantagem competitiva enorme para o país", mas apresentou os empecilhos atuais de se construir barragens para formação de grandes lagos como o de Sobradinho.
"O Nordeste não dispõe de potencial hidráulico como no passado", disse ela, ressaltando que a relação oferta x consumo na região já está no limite e que até 2030 o país terá que quadruplicar a produção de energia. Didaticamente, Olga expôs passo a passo o processo de definição do local para a construção de uma usina nuclear, envolvendo os critérios técnicos e legais. Ao defender a opção, disse que esta é a única capaz de produzir energia abundante em pequenas áreas. "As usinas Angra 1 e 2 ocupam pouco mais do que a área desta Assembléia e geram uma quantidade de eletricidade equivalente a 600 km2 ocupados para energia eólica.

CONSÓRCIO

O secretário Ildes Ferreira disse que "o governo não pode decidir sobre o tema sem debater com a sociedade" e elogiou Álvaro por ter dado o primeiro passo. Ele destacou que a crise energética é um problema que tem que ser enfrentado com urgência, mas também questionou o modelo de desenvolvimento, que banaliza a utilização de energia, a exemplo de automóveis que transportam apenas uma pessoa queimando combustível fóssil. Ildes lembrou que todas as fontes energéticas trazem algum tipo de prejuízo ambiental e sobrou até para a eólica, que afeta as aves locais.
A respeito das possíveis usinas atômicas no Nordeste, o secretário citou recente reunião entre o governador Jaques Wagner e o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, em que este sugeriu que os estados nordestinos poderiam fazer um consórcio para a eventual construção de uma planta, em vez de uma disputa fratricida. "Temos que seguir rumos que nos tragam solução", defendeu Ildes e questionou por que o modelo tem que ser do urânio e não o tório, como é utilizado na França.
Falaram ainda prepostos das Indústrias Nucleares do Brasil, da Nuclebrás Equipamento Pesados (Nuclep) e da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Francisco Neves, da ANP, e Paulo Eduardo, da Nuclep, foram irônicos ao tratar da energia eólica. O primeiro disse que o projeto para Caetité não foi implantado por falta de viabilidade econômica e o outro, exaltando as qualidades de sua empresa, disse que, se o projeto se tornar viável, a Nuclep tem capacidade para construir as torres de captação dos ventos. Defendendo a força nuclear, ele defendeu que não é preciso esperar o petróleo acabar para buscar alternativas. "O petróleo deve ser usado para a indústria petroquímica, estamos queimando muito petróleo desnecessariamente."



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