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Música e protesto marcam evento em homenagem ao Dia do Samba

Publicado em: 05/12/2008 00:00
Editoria: Diário Oficial

A mesa diretora dos trabalhos foi formada por políticos e representantes do samba
Foto:

Música em sessões especiais na Assembléia Legislativa já são praticamente um lugar comum. Então, o que se poderia esperar de uma sessão dedicada a homenagear o Dia do Samba e os 60 anos de existência do afoxé Filhos de Gandhy? Praticamente o ritmo e a melodia substituíram os tradicionais pronunciamentos. O sambista Celso Santana, por exemplo, quase cantou seu discurso. Não foi o caso do deputado Bira Corôa (PT), proponente da sessão, e do prefeito de Maragogipe, Sílvio Ataliba, que fizeram pronunciamentos políticos cevados na necessidade e urgência da reparação racial.
A sessão especial começou bonita, ao som do coral da Assembléia Legislativa e do afoxé Filhos de Gandhy, que juntos deram o tom do que viria. Coube a Bira realizar o pronunciamento de abertura, em que ele fez um retrospecto do Dia do Samba, desde a sua criação, em 1963, quando o vereador Luís Monteiro da Costa propôs a data para homenagear e atrair Ary Barroso, que havia composto "Na Baixa dos Sapateiros" sem nunca ter posto os pés na Bahia até então. Para o parlamentar, o ritmo mais brasileiro de todos é "uma manifestação permanente da alma do povo brasileiro", que desceu os morros para registrar a presença da cultura negra, "com força, resistência e, sobretudo, com irreverência".
Bira falou ainda da existência dos Filhos de Gandhy, que "sempre abrem o grande tapete branco, trazendo paz e harmonia ao Carnaval". Ele lembrou que, durante sua existência, o afoxé mais famoso do país conheceu dois períodos de redemocratização e o do regime militar entre os dois momentos.

RECÔNCAVO

O vice-diretor do Departamento de História e Filosofia da Uefs e presidente do afoxé de Feira de Santana Filhos da Luz, Antonio Anunciação, foi o orador seguinte. Ele começou fazendo uma análise etimológica da palavra samba: explicou que o termo se origina de semba, que significa uma volta em torno do umbigo, e defendeu que "o umbigo do samba é o Recôncavo baiano". Ele disse que o ritmo se originou "como um lenitivo para o sofrimento do trabalho forçado, às atrocidades e tantos e tantos malefícios perpetrados por um grupo minoritário, comparado aos afrodescendentes, que até hoje não respeitam nossa cultura nem nosso espaço". Para exemplificar, ele lembrou que em fins do século XIX o negro era proibido de participar do Carnaval e citou Jorge Amado para questionar: "Onde já se viu Carnaval sem afoxé"?
Heloivaldo França, presidente do Bloco Alvorada, antecedeu Edil Pacheco na tribuna do plenário. Edil contou minuciosamente a criação do Dia do Samba e seu soerguimento, em 1972, quando a data passou a ser comemorada em praça pública. Ao final, cantou Ijexá, uma homenagem de sua autoria ao afoxé imortalizada na voz de Clara Nunes. Firmino de Itapuã disse que participou da fundação do Dia do Samba e agradeceu à força e à perseverança de Edil pelo 2 de dezembro ainda não ter caído no esquecimento. Cantou, também, como não poderia deixar de ser.
Entre um pronunciamento e outro, várias apresentações de grupos, vindos de Maragogipe, Cachoeira, Camaçari. São Francisco do Conde e São Gonçalo compareceram com as belas Lina Paula e Valdelina, que mostraram muito samba no pé. Elas, juntamente com Jussara, do Coletivo de Entidades Negras, fizeram uma homenagem a Bira Corôa, levando-lhe um arranjo de flores "pelo que ele vem fazendo pela comunidade afrodescendente".
Sílvio Ataliba, prefeito de Maragogipe, foi o único a pedir bênção a quem é de bênção, antes de começar a se pronunciar. Disse que Bira chegou em um momento certo na política. "É bonito ver negros sambando no tapete verde da Assembléia Legislativa, mas o que queremos mesmo é ver mais deputados negros aqui", disse, em um discurso enfático e indignado em relação ao papel que o negro ocupa na sociedade. "Não queremos ser lembrados, até porque quem é lembrado é porque foi esquecido. Precisamos fazer parte do orçamento deste país", disse, afirmando preferir ser criticado por defender fazer a "ocupação" do orçamento, ao fazer um paralelo com os movimentos dos sem-terra e dos sem-teto.
O vereador de Salvador José Carlos Fernandes fez um discurso consoante ao que Ataliba havia dito. Bira também voltou a se pronunciar dizendo-se envergonhado ao ver a maioria negra relegada ao papel de figurante no Carnaval de Salvador, sustentando cordas e espremida atrás dos alambrados, "porque o Carnaval se tornou passarela do poder econômico".



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