Memórias Afetivas Infantis é o nome da exposição que o artista soteropolitano Samuel Cruz apresenta, esta semana, no saguão Josaphat Marinho da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). A mostra reúne 14 peças em papel machê, técnica que utiliza uma massa feita com papel picado embebido em água, coado e misturado com cola e gesso.
As obras retratam brincadeiras de rua que marcaram gerações, como pula corda, empurra-roda e tantas outras “que já se apagaram”, como observa Samuel, ao lamentar a realidade atual que “confina as crianças em casa” — seja pela violência que inviabiliza as brincadeiras ao ar livre, seja pela “febre tecnológica” que atinge também o público infantil.
Para o artista, o confinamento e a imersão no mundo digital têm adoecido as crianças, algo que não ocorria em sua infância. Ele conta, de forma bem-humorada, que, aos 19 anos, foi encaminhado a um psiquiatra por sua psicóloga. O diagnóstico inicial foi depressão, mas a avaliação foi “cancelada” por sua avó, que acreditava que “depressão em preto e pobre se cura no cinto”. Hoje, Samuel observa que a realidade mudou e lembra dos inúmeros casos de crianças e adolescentes que enfrentam o transtorno.
Esta é a terceira participação do artista em exposições na ALBA e a segunda semana consecutiva em cartaz. Na semana anterior, ele apresentou trabalhos sobre religiões de matriz africana; agora, exibe peças lúdicas, com preços entre R$ 700 e R$ 900. A mostra é fruto de uma pesquisa livre sobre ludicidade desenvolvida para o curso de Licenciatura em Artes Visuais da Faculdade Estácio.
Trajetória artística
Samuel lembra que sua trajetória artística começou por acaso. Motorista carreteiro de profissão, em 2014 ele sofreu um grave acidente, tombando a carreta que dirigia com 26 toneladas de cloro em pó. Preso às ferragens e com sérios danos no braço e na mão direitos, foi orientado pelo fisioterapeuta a trabalhar com artes manuais para recuperar os movimentos. “Nascia, assim, o artista que hoje se considera um sonhador”, afirma, revelando o desejo de expor seus trabalhos em outros lugares e até no exterior.
A exposição na ALBA, diz ele, o faz sentir-se “pertencente ao espaço”. Samuel elogia o acolhimento recebido, o apoio logístico e o público “formado por pessoas calorosas”. Cada mostra, acrescenta, gera frutos: mais seguidores nas redes sociais, novos contatos e oportunidades. “Aqui é um lugar bacana, o sonho de muitos artistas”, resume.
Casado há 16 anos com Rosângela Vieira, sua “crítica mais rigorosa e confiável”, o artista faz questão de agradecer à imprensa, que divulga seu trabalho, e à Assembleia Legislativa, que “abre as portas sem pedir nada em troca” — diferente de outros espaços, onde, segundo ele, a doação de uma obra é cláusula contratual.
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