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Discurso marcado pela emoção

Publicado em: 08/08/2008 00:00
Editoria: Diário Oficial

Em um histórico pronunciamento, Waldir Pires, comovido, reafirma os princípios que marcaram sua trajetória na vida pública
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Com a voz muito embargada pela emoção, Waldir Pires ocupou a tribuna para homenagear a todos os presentes com um pronunciamento pleno de humanismo, de amor pela democracia e pelo próximo. Ele acabara de receber o título honorífico e, se isto não fosse o bastante, as últimas palavras do discurso de Marizete, lembrando da imagem de  dona Yolanda, ampliou a comoção do ex-governador.
“Seguramente aqui está Yolanda, mulher da minha vida”, disse quando recuperou a voz. Fazendo alusão a cada um dos componentes da mesa, ele disse que o governador Jaques Wagner retoma uma caminhada da Bahia, com um compromisso de transformação profunda no caminho da democracia e da igualdade. “Dias difíceis, mas promissores se avizinham”, anunciou, referindo-se ao trabalho necessário para melhorar as condições sociais.
Mas Waldir não prendeu seu discurso a um tempo ou espaço. Falou de humanidades. Deixou-se levar pelas lembranças ao contar sua experiência, aos 20 anos, como líder do governo de Antonio Balbino na Assembléia Legislativa. Foi ali que, segundo ele, se alimentou de energia “para o destino da construção lenta, difícil e perseverante da sociedade democrática do nosso povo, na Bahia e no Brasil”.
Avaliando a realidade de hoje, lamentou “a fragilização dos conceitos da democracia e da política, em todo o mundo e a nossa incapacidade de as tornarem acreditadas como o método, o caminho de assegurar a realização do bem-estar dos povos e das pessoas, e a igualdade de oportunidade da pessoa humana em seu processo de inadiável inclusão social”.

HUMANIDADE

O homenageado  ressaltou que o mundo ficou pequeno, “somos habitantes de uma só aldeia, que não conseguiu organizar a convivência institucional e humana das nações, de forma respeitosa e equânime. A esse respeito, considera que a Organização das Nações Unidas (ONU) está se apequenando e perdendo a condição de garantidora do equilíbrio da convivência e do progresso possível da humanidade.
À medida que a revolução científica e tecnológica reduziu distâncias e encolheu separações geográficas. “O mundo ficou assimétrico, inclusive no plano do exercício da soberania das nações”, disse, ressaltando que nenhum dos compromissos de redução de arsenais bélicos foi respeitado pelas nações poderosas.
“A política internacional ressente-se dessas inseguranças e a política interna nacional, quase por toda parte, se amesquinha na incapacidade de tornar-se o instrumento eficaz da construção da democracia”, disse, considerando esta a única força capaz de promover a revolução. Para ele, até hoje, houve “a predominância da retórica dos princípios constitucionais negada pelo retrato das realidades urbana e rural e submissa aos diversos e sucessivos tipos de donos de poder.
“De onde provêm essas figuras, na história da civilização humana, senão do absolutismo opressor, ancorado na manipulação casuística e embusteira da teoria do direito divino dos reis”, questionou. Ele atacou “as concepções oligárquicas do poder na utilização de todas as formas de violência e assalto pelo coronelismo: paternalismo, clientelismo, a corrupção, a chantagem a intimidação, a crueldade malvada que mantém multidões de desafortunados e despossuídos”.
A condição fundamental para a concepção de um Estado democrático, receitou o homenageado, é a ética, “que exprime a própria legitimidade do exercício da democracia e a garantia permanente da fidelidade a esse grandioso compromisso que preservará a civilização humana, tão perigosamente cercada de ameaças”.
Para fundamentar sua avaliação da situação política internacional, Waldir se baseou em fatos  históricos, voltando à Grécia de Aristóteles, em que se dizia que “a ética é indivisível, ela não se parte e reparte ao sabor das conveniências”. Mas, mesmo sobre o berço da democracia, não esqueceu de dizer que ela era privativa aos patrícios, não cabendo voz aos pobres ou escravos. Suas palavras visitaram a queda de Constantinopla e os “mil anos de silêncio que compõem a opacidade sombria da Idade Média”. Neste momento, bradou contra a exploração humana e ressaltou o papel do ex-presidente americano Abraham Lincoln, que empreendeu grande lutar para tornar a república dos EUA em uma democracia livre da escravidão.



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