Dado foi apresentado na audiência pública sobre Saúde da Mulher
A alta taxa de mortalidade materna em Salvador vem preocupando os deputados das comissões de Saúde e de Defesa dos Direitos da Mulher, que ontem promoveram uma audiência pública conjunta para discutir o assunto. O encontro contou com a participação da vereadora Aladilce Souza (PCdoB), integrante da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, além de especialistas no assunto.
A primeira a falar na audiência foi a médica Greice Menezes, pesquisadora do Programa de Estudos em Gênero e Saúde (Musa) da Universidade Federal da Bahia, que trouxe dados alarmantes sobre a saúde da mulher na Bahia. Para ela, o grande problema é que 93,98% das mortes maternas no estado seriam evitáveis.
Greice criticou também a Igreja Católica que, em sua opinião, exerce um papel extremamente negativo em relação à descriminalização do aborto. "Por ser ilegal, as mulheres recorrem cada vez mais às clínicas clandestinas e se submetem a procedimentos altamente arriscados para interromper a gestação", lamentou ela.
De acordo com a pesquisadora, quase a totalidade dos casos de mortalidade materna no estado nos últimos anos era previsível e podia ser prevenido, com ações muito simples. "Para tanto", ressaltou ela, "seria necessário que tivéssemos uma rede de saúde organizada."
Dados expostos por ela mostram que a Organização Mundial de Saúde preconiza como aceitável o índice de 20 óbitos maternos para cada cem mil nascidos vivos. A taxa de mortalidade nos países desenvolvidos gira em torno disso e, em alguns, como o Canadá, não passa de nove por mortes para cada 100 mil. Em Salvador, segundo a última pesquisa feita em 1998, a taxa girava em torno de 134 mortes.
"A cada cinco dias morre uma mulher em decorrência da gestação", lamentou Greice, apontando o aborto como a principal causa de óbito. O perfil predominante das vítimas? Negras, pobres e pouco escolarizadas. "As maiores taxas de mortalidade se encontram nas áreas com as piores condições de vida", reforçou ela, citando o Subúrbio Ferroviário, o Beiru e alguns trechos da região de Itapuã.
Greice destacou o custo social que as mortes dessas mulheres provocam. "Quando essas mulheres morrem acabam as famílias e os filhos normalmente são distribuídos entre os parentes delas e os paternos", observou. Ela defendeu ainda o direito da mulher de ter uma gravidez saudável e tranqüila, mas também de interrompê-la se assim decidir.
A também médica Maria José Araújo, da Rede Nacional Feminista de Direitos Reprodutivos, afirmou no encontro que a Bahia detém os piores indicadores de mortalidade materna do Brasil – apesar de ser hoje uma das economias mais fortes do país. Ela salientou, contudo, que tem esperanças de que esta situação vai mudar "dado o comprometimento do secretário Jorge Solla (estadual da Saúde) com as questões relacionadas à saúde da mulher."
Já para Débora do Carmo, diretora de Gestão e Cuidados à Mulher da Secretaria estadual da Saúde (Sesab), a Bahia possui nos hospitais públicos e privados 5.194 leitos obstétricos – número considerado suficiente para atender à demanda no estado. A coisa começa a se complicar, acrescentou ela, quando se trata de leitos para pacientes de alto risco.
"Além de esses leitos não serem suficientes, eles estão concentrados em Salvador, o que provoca constantes deslocamentos de pacientes do interior para a capital", alertou. Segundo Débora, o prior é que nem todos esses pacientes são de alto risco. "Muitas vezes, as mulheres vêm para cá por uma simples cesárea, já que muitas unidades do interior estão despreparadas para fazer até isso."
E quando essas mulheres vêm para Salvador, muitas delas procuram os serviços do Instituto de Perinatologia da Bahia (Iperba), como explicou a diretora Dolores Fernandez. "A maior parte dos pacientes que recebemos vem dos municípios do interior, o que acaba sobrecarregando o atendimento", afirmou.
Dentre os serviços oferecidos pelo Iperba, explicou ela, estão a interrupção de gestações de mulheres vítimas de estupro e a interrupção da transmissão vertical de HIV e sífilis congênita. Além disso, o instituto tem programas inovadores, como o método Mãe Canguru e Doulas – Mulheres que se Cuidam.
Também participaram da audiência conjunta o líder do governo na AL, Waldenor Pereira (PT), e os deputados Javier Alfaya (PCdoB), Eliedson Ferreira (DEM) e Neuza Cadore (PT).
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