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Sessão na AL contra manicômios

Publicado em: 09/06/2008 00:00
Editoria: Diário Oficial

Plenário da Assembléia Legislativa da Bahia ficou lotado na sessão especial que marcou mais uma etapa da luta antimanicomial no tratamento das enfermidades que afetam a saúde mental
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Em uma sessão duplamente especial, os portadores de transtornos mentais pela primeira vez tiveram voz na Assembléia Legislativa. O encontro, que teve como tema a "Reforma psiquiátrica – o Brasil sem Manicômio", foi proposto pelo deputado Álvaro Gomes (PC do B) e contou com a participação de autoridades, representantes de entidades, além dos portadores de transtornos e seus familiares.

Apesar do caráter comemorativo, por conta da passagem do Dia de Luta Antomanicomial (18 de maio), produziu propostas efetivas. Dentre elas, a realização de uma Conferência Estadual sobre Saúde Mental. "Vamos buscar inicialmente realizar as conferências regionais para construir depois a estadual, a exemplo do que já ocorreu com outras conferências temáticas", observou o Álvaro Gomes, no final da sessão.

Outra idéia que surgiu do encontro foi o fortalecimento do Conselho Estadual de Saúde Mental. "É preciso que o Estado se envolva de forma prática, formal e concreta para fortalecer a luta dos portadores de transtornos mentais", conclamou Álvaro Gomes, acrescentando: "O que é preciso é humanizar cada vez mais o tratamento, é respeitar as diferenças por cada vez mais fica cada mais difícil classificar entre normal e anormal".

Apesar dos enfáticos discursos dos dirigentes e representantes de entidades, o ponto alto da audiência foi quando os portadores de transtornos mentais e seus familiares assumiram o microfone. O presidente da entidade Metamorfose Ambulante, Joselito de Jesus, criticou por exemplo a "facilidade" que a Justiça concede a tutela de pacientes a familiares. "A interdição é a nulidade total de um ser humano, que deixa de ser um cidadão e passa a ser um número".

Para Joselito, todos são diferentes e isso é saudável. "O importante é se entender cada qual na sua diferença". Já Angelina Gonçalves, mãe de três portadores de transtornos ("três presentes que Deus me deu"), defendeu também a inclusão dos pacientes no mercado de trabalho. "Eles têm condições da fazer várias coisas, só precisam é ter oportunidade", defende Angelina, sendo muito aplaudida pelo público, que encheu o plenário da Assembléia Legislativa.

A experiência desenvolvida no município de Lauro de Freitas (a prefeita Moema Gramacho marcou presença no evento) foi muito salientada na sessão especial. O Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do município da região metropolitana é considerado um dos melhores e mais atuantes do estado. Moema presentou Álvaro e Assembléia com bonecas de baianas produzidas pelos alunos de artesanato do Caps.

O modelo de atenção psicossocial, como o aplicado no Caps Eduardo Alves de Araújo, no município, é referência no tratamento psiquiátrico. De acordo com o psiquiatra Paulo Amado, coordenador do Caps, o centro atende hoje 477 pessoas com transtornos mentais, psicoses e neuroses graves. Lá, os usuários participam de 21 oficinas terapêuticas, a exemplo das aulas de canto, teatro, artesanato e culinária, além de receber acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Já a situação de Salvador é considerada mais complicada, apesar da capital baiana possuir 16 Caps. "Apesar do número satisfatório, muitos Caps estão caindo aos pedaços e prestam um péssimo atendimento", criticou a vereadora Aladilce Souza (PC do B), presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal.

Ela denunciou ainda que muitos portadores estão perdendo o direito a passe-livre nos ônibus por conta da pressão dos empresários de transporte. "Como eles poderão se tratar sem dinheiro para transporte?", questionou a vereadora. O Centro de Atenção Psicossocial está voltado a assistir pessoas com problemas de saúde mental, individual e coletiva, sem necessidade de internamento, como prega a reforma psiquiátrica.

 



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