O alegre espírito do circo invadiu ontem a Assembléia Legislativa, na sessão especial de entrega de título de cidadão baiano ao fundador do Picolino, Anselmo Serrat. Proposta pelo deputado Javier Alfaya (PC do B) e aberta pelo presidente da AL, deputado Marcelo Nilo (PSDB), a sessão foi marcada por apresentações de malabares, acrobacias, leitura de poesia e muita música a cargo da dupla Juraci do Amor e Gilberto Portugal. O público, que encheu o plenário da AL, era formado predominantemente por alunos, instrutores e amigos do Circo Picolino, que funciona também como escola circense.
Emocionado, o "novo" baiano Anselmo Serrat fez questão de dividir com os presentes a honraria concedida pelo parlamento estadual. "O título de cidadão baiano é meu, mas o reconhecimento do trabalho é de todos", disse ele, sendo muito aplaudido. Apesar do clima de festa, Serrat não deixou de lembrar as dificuldades vividas pelo Picolino que, por causa da suspensão dos repasses feitos pelo governo do Estado, está há cinco meses sem pagar os salários dos funcionários. "Apesar disso, a escola do Picolino não deixou de funcionar nem um dia".
Segundo o homenageado, o Circo Picolino está se adaptando a este novo momento e se credenciando para voltar a receber as verbas públicas. No final da sessão, ele foi inclusive convidado pelo deputado Javier Alfaya para vir à Assembléia participar das discussões do orçamento do próximo ano. Conforme Javier explicou, este é o momento de definição das prioridades de investimento do Estado para as diversas áreas, inclusive a cultural. "Esta Casa está recebendo diversas organizações para discussão de emendas e seria muito importante também a participação do Picolino", avaliou o parlamentar comunista.
Além da homenagem da Assembléia Legislativa, o Picolino obteve esta semana outro reconhecimento que lhe fortalece na luta para vencer a grave crise financeira. Na última quarta-feira, Anselmo Serrat recebeu das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a medalha de Ordem do Mérito Cultural, que ele exibiu com visível orgulho na sessão na AL. Ele foi um dos 40 homenageados em todo país, sendo que algumas das homenagens foram póstumas, como as de Glauber Rocha, Cartola e Tom Jobim. "Durante o evento, o presidente Lula cochichou em meu ouvido: "O trabalho do Picolino é muito lindo", contou Serrat, cheio de orgulho.
HISTÓRIA
A sessão especial foi iniciada com a exibição do vídeo Picadeiro Eletrônico, que mostrou a trajetória da Escola e do Circo Picolino. Logo depois, Javier fez um discurso no qual contou a história de Anselmo Serrat. O deputado, que conhece o homenageado desde a década de 1980, relatou que no passado, quando ainda vivia no Rio de Janeiro, Anselmo Serrat deu apoio a grupos que lutavam contra a ditadura militar. Ele tinha um estúdio de fotógrafo na década de 70 na capital fluminense e que funcionava como ponto de apoio desses grupos. "Depois de ter o estúdio fechado pelos militares, ele veio para a Bahia e foi morar na comunidade hippie de Arembepe", contou Javier.
Além de fotógrafo, Anselmo Serrat também trabalhou no cinema como diretor de fotografia, teve a sua própria produtora, a Focus, e foi sócio da Lente Filmes. Trabalhou nos filmes "O Rei da Vela", "Ladrões de Cinema" e "Na Boca do Mundo". No início dos anos 80, Anselmo voltou para São Paulo e encontrou no circo uma linguagem com a qual se identificou de forma plena. Freqüentou a Academia Piolin de Circo e integrou o Grupo de Circo-teatro Tapete Mágico, que o trouxe para várias apresentações em Salvador.
Em 1985, já de vez em Salvador, Anselmo Serrat criou a Escola Picolino de Artes do Circo, uma das primeiras escolas de circo do Brasil, pioneira no Norte-Nordeste. O trabalho ganha terreno. "Além de transmitir a arte circense, a escola contribui na formação emocional e relacional dos alunos". Segundo Javier, Anselmo viu aí uma missão maior: a possibilidade de trabalho com crianças excluídas. Experiências de curta duração foram realizadas com o Juizado de Menores, Centro de Amparo ao Menor e a prefeitura.
Em 1990, ele firma parceria com o Projeto Axé para atender meninos e meninas vindos das ruas de Salvador. Começo difícil, resistência, apreensão entre a equipe, apreensão entre os meninos e meninas. A perseverança de Anselmo venceu e, desde então, o projeto criado e dirigido pelo artista-educador vem se fortalecendo como meio de recuperação da dignidade de crianças antes excluídas dos processos sociais básicos.
"Ao longo desses 20 anos, passaram pela Picolino milhares de crianças, de todas as etnias e classes sociais, portadoras de limitações físicas, analfabetas, estudantes. Todas apaixonadas pelo circo. Muitos cidadãos participativos, outros ainda crianças, guardam a imagem da figura singular e a certeza de que a Picolino é Anselmo Serrat. Educadores, artistas, autoridades, entidades internacionais reconhecem o valor do seu trabalho", finalizou Javier Alfaya.
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