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Jacó reverencia memória de Abdias do Nascimento

Publicado em: 07/04/2021 09:19
Setor responsável: Notícia

“Economista por formação, Abdias do Nascimento foi ator, poeta, escritor, jornalista, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político, um militante incansável da luta contra a discriminação racial e pela valorização da cultura negra”. Com esta saudação de reconhecimento a um grande líder negro do Brasil, o deputado Jacó (PT) inseriu, na ata dos trabalhos da Casa Legislativa, uma moção de congratulações pela passagem dos 107 anos de nascimento do intelectual “que foi agraciado por chefes de Estado, recebeu prêmios de organismos internacionais e elevou o nome do país nos Estados Unidos, América Latina e África”.

No documento, o parlamentar baiano faz uma extensa explanação contando a rica história do ex-senador, que nasceu no município de Franca-SP, em 14 de março de 1914, e faleceu em 23 de maio de 2011, no Rio de Janeiro, vítima de complicações da diabetes. Neto de ex-escravas, o filho da doceira Georgina e do sapateiro e músico José Ferreira cresceu em uma família pobre. Aos 9 anos, começou a trabalhar entregando leite e carne na casa dos mais ricos. Como sempre se dedicou aos estudos, aos 15 anos formou-se em Contabilidade. Logo depois, foi morar na capital São Paulo e alistou-se no Exército Brasileiro, onde ficou por seis anos, saindo expulso acusado de indisciplina por causa de desentendimentos com a polícia.

O legislador relata que o jovem Abdias passou a ter um contato mais profundo com as religiões de matriz africana depois que se mudou para Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, por volta de 1937. Na capital fluminense, cursou Bacharelado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, instituição na qual virou ativista do Movimento contra o Estado Novo, custando-lhe, em 1943, uma condenação e prisão por dois anos no famoso Presídio do Carandiru. Ao longo de uma brilhante trajetória de vida, o petista diz que Abdias do Nascimento “foi múltiplo, plural, uma das figuras mais proeminentes dos Direitos Humanos no Brasil”.

No início da década de 40, Abdias do Nascimento conheceu alguns poetas argentinos e fundou a "Santa Hermandad de La Orquídea", passando a viajar com o grupo apresentando recitais, participando de saraus e acompanhando peças de teatro. Fundou o Teatro Experimental do Negro, O Museu da Arte Negra e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, todos no Rio de Janeiro. Idealizou também vários movimentos nacionais e internacionais, como a Frente Negra Brasileira, a Negritude e o Pan-Africanismo.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública da ALBA lembra ainda que Abdias do Nascimento, por força do regime militar, ficou exilado por 13 anos nos EUA. Foi longe de casa que desenvolveu sua extensa obra nas artes plásticas, abordando, através das pinturas, temas da cultura religiosa da diáspora africana, da resistência à escravidão e ao racismo. No tempo em que esteve exilado, o líder negro sobreviveu dando aulas. Foi professor emérito da Universidade do Estado de Nova York, professor visitante da Universidade de Yale e professor do Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ifé, na Nigéria.

Jacó também destaca que o intelectual publicou dezenas de livros, em inglês e português, editou duas revistas e um jornal "Quilombo". De acordo com o deputado, o livro de poesias "Axés do Sangue e da Esperança: Orikis", de 1983, constitui-se em um marco na literatura afro-brasileira. A vida política, diz o petista, Abdias começou cedo, em 1945, no antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas o engajamento só ocorreu mesmo em 1981, quando ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT), legenda que abraçou até o dia da sua morte.

Depois que voltou do exílio de 13 anos, Abdias do Nascimento resolveu disputar uma cadeira no legislativo brasileiro e conseguiu uma vaga, em 1983, como deputado federal. Em 1991, ele se tornou o primeiro senador afro-descendente a dedicar o seu mandato à promoção dos direitos civis e humanos do povo negro. Algum tempo depois, designado pelo amigo, o então governador Leonel de Moura Brizola, Abdias do Nascimento foi o primeiro titular da nova Secretaria de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras.

Na Europa, nas Américas, na África, o político e artista foi laureado pelo trabalho de excelência, ressalta o parlamentar. Em 2006, recebeu das mãos do presidente Lula a mais alta honraria do Governo Federal, que lhe outorgou a Ordem do Rio Branco, no grau de comendador. No ano seguinte, foi a vez da Bahia homenagear a liderança negra. A Câmara Municipal do Salvador concedeu-lhe o Título de Cidadão Soteropolitano e entregou a Medalha Zumbi dos Palmares. Em 2010 foi indicado oficialmente para o Prêmio Nobel da Paz, sendo considerado um dos maiores expoentes do Movimento Negro em todo o mundo.

“Estamos diante de um dos mais completos intelectuais e homem de cultura da história africana no século XX”, finalizou Jacó ao lembrar os 107 anos de nascimento do líder Abdias do Nascimento.


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