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Salvador de 1.159 terreiros, diz mapeamento do Ceao

Publicado em: 12/09/2007 00:00
Editoria: Diário Oficial

Mapeamento dos terreiros de Salvador foi apresentado na Comissão de Igualdade Racial
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Dados foram apresentados na Comissão de Igualdade Racial da AL
A maior concentração dos terreiros da capital baiana está no subúrbio e apenas 39,3% dos 1.159 que estão em funcionamento têm escritura registrada. Além disso, 78,4% não têm área de matas e somente 37,2% são de propriedade dos pais e mães-de-santo. Estes e outros dados foram revelados pelo Projeto de Mapeamento dos Terreiros de Salvador, realizado pelo Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), em parceria com as secretarias municipais de Reparação e Habitação.
Com o objetivo de debater este trabalho de pesquisa foi realizada, na manhã de ontem, uma audiência pública, no Auditório do Memorial da Assembléia Legislativa, coordenada pela Comissão Especial de Promoção da Igualdade, presidida pelo petista Bira Corôa.
Para o coordenador do estudo, o doutor em Antropologia Jocélio Teles, o trabalho deve ir muito além da simples estatística. "O importante é que com o mapeamento possamos dar ressonância ao trabalho e conquistar políticas públicas para as religiões de matriz africanas."
Ele informou que o trabalho já ultrapassou as fronteiras da Bahia. "Já recebemos convites para fazer um mapeamento em Pernambuco", contou, acrescentando que ficou "chocado" com o que viu na visita que fez ao Recife. "Lá, o Estado ainda invade os terreiros com policiais, especialmente de crença protestante."
Esta perseguição secular do Estado aos terreiros, ainda de acordo com Jocélio Teles, talvez tenha se refletido até mesmo na pesquisa aqui na Bahia. "Vinte e cinco terreiros se recusaram a responder aos questionários, o que é perfeitamente compreensível, já que eles têm razão histórica para desconfiar dos poderes públicos", afirmou.
Outro dado que o espantou, mas de forma positiva, foi o que classificou de "espírito de tolerância" destes religiosos para com as outras denominações. Ele destacou ainda que o comando da maioria dos terreiros, 63%, continua nas mãos das mulheres.

REPARAÇÃO

Na mesma direção falou o secretário municipal de Governo, Gilmar Santiago. "Precisamos de uma política pública permanente para que os serviços do Estado estejam também ao dispor das religiões de matriz africana", afirmou. Ele reconheceu, porém, que é muito difícil transformar a "atual realidade solidificada ao longo dos séculos". Como forma de ouvir a comunidade, o deputado Yulo Oiticica (PT) sugeriu que o presidente Bira Corôa recolha todos os projetos relacionados às religiões africanas e entregue para que o "povo-de-santo dê um parecer".
Em seguida, o deputado federal Zezéu Ribeiro (PT), autor da emenda que ajudou a financiar o projeto, afirmou que, ao discutir estas questões, na verdade estava-se debatendo também o projeto de construção do país enquanto nação soberana.
Também falaram o deputado Ivo de Assis (DEM), que fez profissão de fé na tolerância religiosa, e integrantes de movimentos organizados. O evento foi encerrado ao som dos tambores e outros instrumentos de origem africana.



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