AL homenageia escritor, que dá "aula" sobre cordel barroco
"Vixe! Esqueci de elogiar as autoridades, vão me perdoar". Foi mesmo sem quaisquer prolegômenos que o escritor e secretário de Cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna, iniciou seu discurso de agradecimento pelo título de cidadão baiano. A honraria foi concedida em sessão especial, ontem à tarde, na Assembléia Legislativa, por iniciativa do deputado Paulo Rangel (PT), aprovada por unanimidade. A omissão foi percebida no meio do pronunciamento e arrancou gargalhadas e aplausos, que não foram únicos nem foram os primeiros durante os mais de 45 minutos de sua fala, que se converteu em uma verdadeira aula de literatura barroca e de cordel, repleta de citações do poeta baiano Gregório de Mattos e de Antonio José da Silva, o Judeu, dramaturgo carioca do século XVIII.
Suassuana não parecia particularmente emocionado quando entrou no plenário, ladeado por Rangel, Álvaro Gomes (PC do B), Gilberto Brito (PR) e Zé Neto (PT). Mas bastou o cantor Fábio Paes entoar "Canudos" para ele se derramar em lágrimas ("A coisa mais feia do mundo é sertanejo mole e hoje mostrei que sou mole", diria ele mais tarde, justificando que a emoção não o deixava ficar de pé para seu pronunciamento). Ao fim da cantoria, mandou às favas o protocolo, levantou e deu um abraço em Paes, dizendo-lhe: "Me fez chorar".
Como os bons repentistas, foi pinçando aqui e ali as glosas para desenvolver sua fala. Assim, citando a amizade com Consuelo Pondé (do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia), presente à Mesa, falou sobre as rixas políticas da Paraíba, sua terra natal, nascidas do assassinato do governador João Pessoa, em 1930, e do seu pai, João Suassuna, em represália àquele. Citou os outros títulos recebidos em Pernambuco e Rio de Janeiro, que fez dele "conterrâneo" dos "mestres" Augusto dos Anjos, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Antonio José e da "pessoa mais importante da minha vida", a esposa Zélia. Agora baiano, tornou-se concidadão de Gregório de Mattos, sobre o qual defendeu tese de doutor da UFPE, em 1976.
SONHO
Ao fazer o discurso de homenagem, Paulo Rangel disse que a entrega do título representa "a realização de um sonho, pela oportunidade de conceder a um nobre representante de nosso povo o reconhecimento da importância de sua obra literária para o enriquecimento e a disseminação da cultura nordestina". O parlamentar apresentou uma breve biografia do autor de "O auto da Compadecida", sua peça mais conhecida, escrita em 1955 e adaptada para a televisão e o cinema.
Nascido em 16 de junho de 1927, escreveu as primeiras poesias aos 16 anos. Mais tarde, professor universitário e escritor premiado, fundou o Teatro Popular do Nordeste e o Movimento Cultura Popular, ambos em Recife, cidade onde passou a morar desde 1942. Foi ali também que idealizou o Movimento Armorial para realizar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares da nossa cultura. "Em 1990, esse advogado, professor, teatrólogo e romancista foi merecidamente imortalizado através da ocupação da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras."
O protocolo da sessão foi também quebrado para o deputado sertanejo Gilberto Brito (PR) fazer um pronunciamento, destacando sua inveja em relação ao colega petista, por ele ter tido a iniciativa da homenagem. Brito aproveitou para presentear com uma foto-poesia de sua autoria, lida em plenário. O evento contou ainda com a apresentação do duo de flauta e violão Sérgio Campelo e Cláudio Moura, além do grupo teatral Tamtan, de Tanquinho. Ao encerrar, o presidente da Assembléia, deputado Marcelo Nilo (PSDB), destacou sua felicidade em entregar o título de cidadão a Suassuna, por sua admiração pessoal, confessando que viu o filme "O Auto da Compadecida" seis vezes. Ao final da sessão, houve um coquetel à base de milho cozido e amendoim, entre outros quitutes, e Suassuna distribuiu autógrafos, podendo os presentes comprar alguns de seus livros no próprio local.
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