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Assembléia recebe 5 mil Sem-Terra

Publicado em: 18/04/2007 00:00
Editoria: Diário Oficial

Apesar do grande afluxo de manifestantes, o acesso à Assembléia Legislativa foi ordeiro
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Movimentos pela reforma agrária tomam assento na Casa do Povo
"MST essa luta é pra valer". Com esse entre outros slogans, cerca de 900 membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e da Coordenação Estadual dos Trabalhadores Acampados, ocuparam, ontem, as dependências da Assembléia Legislativa para participar da sessão especial que lembrou os 11 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, no dia 17 de abril.

A sessão requerida pelo deputado Yulo Oiticica (PT), e tornada possível por acordo de lideranças, estava marcada para as 10h, mas já passava do meio-dia quando começou. É que os cerca de cinco mil sem-terra, que chegaram anteontem a Salvador, marcharam rumo à Governadoria, onde se reuniram com o governador Jaques Wagner, antes de chegar à AL.

Os Sem-Terra se espalharam pela sede do Legislativo, lotando plenário, galerias, salão nobre, Sala Luís Cabral e corredores. A presença de homens e mulheres com seus característicos bonés e bandeiras vermelhos foi saudada por diversos parlamentares, a exemplo de Zilton Rocha (PT), que se disse feliz em ver as cadeiras ocupadas por aquelas pessoas, corroborando em seus pronunciamentos o que um dos primeiros manifestantes disse ao entrar: "Vão sentando, gente, que a casa é do povo".

Pouco depois de compor uma singular mesa, em que cinco dos dez componentes tinham raízes nos movimentos rurais ou ligações estreitas, o presidente Marcelo Nilo (PSDB) passou a palavra ao deputado Yulo Oiticica (PT), primeiro orador da manhã/tarde, que disse que o 17 de abril é um marco forte para o país, "que foi o último a abolir, pelo menos oficialmente, a escravatura e será o último a promover reforma agrária", uma realidade que, segundo ele, é motivo de vergonha perante a comunidade internacional.

BEM-VINDOS

Em um ambiente em que o conflito no campo é responsável por 770 mortes apenas no Pará, Yulo anunciou o que teria sido para ele a frase mais importante do dia, porque demonstra uma mudança de comportamento: "Sejam bem-vindos", pronunciada pelo governador Jaques Wagner ao receber os sem-terra, abrindo as portas das secretarias. "Ainda não estamos num mar de rosas, mas há 11 anos foi um mar de sangue", avaliou, considerando que o MST tem conseguido politizar o debate e amalgamar simpatizantes ao redor do mundo.

CACETETES

Entre os diversos pronunciamento fortes, o secretário de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, Valmir Assunção, fez um veemente discurso, criticando o fato de que 50% das terras da Bahia são devolutas – ele tem projeto tramitando na Casa, que prevê a utilização dessas terras para reforma agrária. Também lembrou as primeiras marchas, quando "fomos recebidos pela polícia com cacetetes e não conseguimos chegar ao plenário". Ele disse ainda que a pauta reivindicada é justa e que o governo do Estado negociou dentro das possibilidades.

Uma sessão que teve participação ativa da audiência, com discursos inflamados, que a toda hora despertavam aplausos acalorados e palavras de ordem. Mas após o discurso de Yulo, o presidente pediu a realização de um minuto de silêncio em respeito à morte do ex-deputado Wilson Falcão, logo depois de ser informado do ocorrido. Falaram depois Bartolomeu Guedes, líder dos Acampados, e o líder do governo, Waldenor Pereira (PT), que se disse orgulhoso de pertencer à bancada governista, ao avaliar o tratamento dispensado por Wagner e secretários aos sem-terra, relatando em plenário as conquistas alcançadas.

Assim como fez Bartolomeu, Márcio Matos, representante nacional do MST, reclamou de fatias do Judiciário, dizendo que até hoje os responsáveis pelo massacre de Eldorado não foram punidos. "Deveria ter a mesma velocidade que têm para reintegrar terras ocupadas", alfinetou. O líder da minoria, Gildásio Penedo (PFL), disse que, "de fato, o MST inaugurou uma nova fase do movimento rural", considerando que não é possível um país ser justo e igual "sem uma reforma agrária, séria, justa e que respeite o direito de todos". Zé Neto (PT), por sua vez, apontou para o caos nas cidades se a reforma não vier logo, idéia compartilhada por Fátima Nunes (PT).

Elmar Nascimento (PR) garantiu a boa vontade do PR e da oposição na tramitação de matérias de interesse dos sem-terra e Álvaro Gomes (PC do B) lembrou os laços do seu partido com os movimento camponeses. Ferreira Otomar (PMDB) e Zé das Virgens (PT) revelaram laços pessoais como homens da terra. Neusa Cadore (PT) disse que o MST conquistou o direito de fazer a sociedade refletir e Bira Coroa (PT) ressaltou as diferenças entre o atual governo petista de Júlia Carepa, no Pará e o da época do massacre, de Almir Gabriel. Falou ainda o representante da Comissão Pastoral da Terra, frei Luciano Bernardi.



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