Em depoimentos ontem à CPI do Cacau, três dos acusados de sabotagem biológica pelo administrador de empresa Luiz Henrique Franco Timóteo negaram qualquer participação na disseminação da praga da vassoura-de-bruxa no sul da Bahia. Os técnicos da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), Jonas Nascimento e Everaldo Anunciação, e o chefe do centro de extensão do órgão, Elieser Barros Correia, disseram na comissão que sequer conhecem pessoalmente o autor das denúncias, publicadas pela primeira vez numa reportagem da revista Veja.
Elieser Correia foi além e disse ter sido informado pelo agricultor Luciano Thomas sobre a ocorrência de uma reunião na qual o ex-coordenador da Ceplac, Carlos Viana (que já depôs na CPI), teria dito que estava preparando uma bomba contra o PT na região. Essa reunião, segundo ele, teria sido realizada oito meses antes das denúncias terem sido publi-cadas na revista e teria contado com a participação de Timóteo. Correia garantiu que o agricultor inclusive confirmou essa informação em depoimento prestado à Polícia Federal. A CPI não perdeu tempo e decidiu convocar Luciano, ontem mesmo, para depor na próxima quarta-feira na condição de testemunha.
"Essas denúncias foram feitas com a clara intenção de prejudicar as candidaturas de Geraldo Simões, Everaldo Anunciação e do governador eleito Jaques Wagner", denunciou o atual chefe do centro de extensão da Ceplac. Correia disse ainda que visitou a região Norte do país, pela primeira vez, em 2004, participando de uma série de encontros pela Ceplac. De acordo com a denúncia de Timóteo, o fungo teria sido trazido da região Norte e disseminado na lavoura cacaueira da Bahia em 1989.
Correia não acredita inclusive que a disseminação da praga tenha sido feita de forma criminosa – consenso já formado entre integrantes da CPI. Para ele, é mais provável que o fungo tenha sido trazido por trabalhadores ou produtores de cacau por conta do intenso intercâmbio entre as duas regiões produtoras no país. "Muitos produtores baianos inclusive compraram terras no Norte do país para produzir cacau. A abertura das fronteiras entre a Bahia e a região amazônica foi uma possibilidade concreta de contaminação da lavoura cacaueira", argumentou o dirigente.
Após este depoimento, o deputado Pedro Alcântara (PL) pediu que o jornalista da revista Veja Policarpo Júnior, autor da matéria, fosse novamente convocado para depor na CPI. Policarpo já faltou a dois depoimentos, alegando problemas de agenda. Por conta disso, o parlamentar sugeriu inclusive que a assessoria jurídica da Casa seja acionada para garantir o depoimento do jornalista.
Everaldo Anunciação também declarou à CPI que só conheceu a região amazônica em 2003, quatro anos depois da descoberta do primeiro foco no sul baiano. Segundo ele, a denúncia de que a praga teria sido disseminada pelos petistas para acabar com o poder dos barões de cacau não procede, já que 82% da lavoura na Bahia pertence a pequenos produtores. "Não estamos falando de uma região latifundiária", argumentou.
A exemplo de Elieser Correia, ele disse não ter certeza sobre a origem criminosa da praga e criticou a extinção do programa de Controle da Vassoura-de-bruxa (Cavab). "O risco que a praga da vassoura-de-bruxa representa justificava uma vigilância sanitária constante nas estradas que dão acesso à região cacaueira", observou. Everaldo garantiu que sua luta e militância política na região sempre foi "contra a exploração dos produtores pela indústria transformadora e de chocolate". Para ele, é preciso agregar valor ao cacau produzido na região.
Ele destacou também a importância da lavoura cacaueira para preservação da mata a-tlântica na região. "Quando eu falo em agregar valor me referi também às reservas de mata atlântica", assinalou. Everaldo Anunciação disse que oficialmente o primeiro foco de vassoura-de-bruxa apareceu no sul baiano em 1989, mas há notícias de que a praga já estaria presente na região desde 1986.
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