Advogado que fez história na luta contra a ditadura militar, ex-deputado, mas sobretudo poeta, Adelmo Oliveira terá seu livro, “Poemas Escolhidos”, lançado pela Assembleia Legislativa da Bahia, nesta terça-feira, às 16h, no Saguão Nestor Duarte. A obra é mais uma a ser publicada através do programa Edições ALBA, que já lançou dezenas de livros de relevância para a cultura e história do Estado.
A apresentação do livro é assinada pelo professor-doutor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ildásio Tavares, autor de um denso texto intitulado “A Arqueologia do Novo”, também republicado. A coletânea reúne belos poemas de volumes publicados e esgotados como “O Som dos Cavalos Selvagens” (1960), “Cânticos para o Deus dos Ventos e das Águas” (1987), “Espelho das Horas” (1991), “Canto Mínimo e Poemas das Vertigens” (2010) e alguns inéditos.
“Culto, lido, experimentando, calejando, maltratado pela maldade dos homens e pela Moira – esta deusa impiedosa -, sazonado pela dor física da tortura, pela dor mental infligida pela ignorância, pelos punhais gelados da suprema dor de ver-se morrer em seu projeto narcísico do futuro, Adelmo Oliveira não deu a isso tudo o troco turvo da amargura”, escreveu Ildásio, ao apresentar o livro. “Deu ao mundo, como flor, a dor filtrada dos seus versos, e como todo poeta – que só é grande se sofrer – Adelmo se fez grande pelo sofrimento da vida vertido no sofrimento da linguagem para tingir o único paraíso palpável – o Éden da poesia, onde a queda se resolve em ritmo, onde o pecado se resolve em beleza”, acrescentou ele.
Além de poeta, esse baiano de Itabuna também teve uma participação expressiva na luta contra a ditadura militar de 1964. Foi chefe dos escritórios dos jornais Movimento e Em Tempo, em Salvador. Como advogado, defendeu muitas ocupações de terras na capital, assegurando o direito de morar de centenas de milhares de pessoas.
Mas foi no campo da poesia onde ele deixou sua marca na cultura da Bahia. Formado em Direito pela Ufba (1966), participou do Movimento Cultural Baiano escrevendo estudos, ensaios e poesias para os principais jornais e revistas de Salvador. Durante sua trajetória publicou todos os livros que serão relançados agora pela coletânea editada pela Assembleia Legislativa.
Em 1962, sob um júri formado por nomes de expressão da literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Austregésilo de Athayde, José Carlos Lisboa e Pio de Los Casares, recebeu o Prêmio Nacional Luis de Góngora com ensaio “Góngora e o Sofrimento da Linguagem”. Participou ainda de várias Antologias Poéticas editadas na Bahia, no Sul do País e no Exterior. Exerceu atividade política contra a Ditadura Militar, sendo preso por duas vezes e torturado. Foi eleito deputado estadual à Assembleia Legislativa do Estado da Bahia pelo antigo MDB, em 1978.
“Inseridas numa linguagem brasileira que remonta por raiz a uma sensibilidade e linguagem ibéricas, as poesias de Adelmo Oliveira recuperam, resgatam e ressuscitam tropos, topos e formas do passado, convertendo-as com propriedade numa voz contemporânea”, observou Ildásio Tavares. Para ele, Adelmo Oliveira é um genuíno poeta, um poeta culto, sensível que, porém, não despreza a técnica.
“Entretanto, não temos diante de nossos olhos o produto insosso de destilação científica”, alertou Ildásio. “Adelmo Oliveira, como todo arquiteto competente, não nos deixa ver os andaimes esdrúxulos das construções buarqueanas. Ele cose tudo com a supervisão das musas, e nos oferece o fundamental, para mim, na arte: a transgressão e o deleite. O resto é cibernética, digitação”.
REDES SOCIAIS