Secretária de Emprego, Renda e Esporte, Olívia Santana mostrou indignação ontem à tarde, na Assembleia Legislativa, ao dizer que a morte de negros está sendo banalizada, lembrando da tragédia da Lancha Cavalo Marinho 1, “que foi tragada pelas águas”. Segundo ela, os negros que sofrem morte violenta aparecem apenas como números estatísticos, sem nome nem sobrenome. O pronunciamento da secretária ocorreu durante a sessão especial proposta pelo deputado Bira Corôa (PT) em comemoração aos 30 anos do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN) .
“É importante nós celebrarmos, sim, porque existiram avanços, mas é um momento também de reivindicação, elevando o tom da nossa voz para manter a chama acesa”, disse.
Ela destacou a importância do CDCN nas conquistas alcançadas, porém alertou que “é impressionante como o racismo ganha vida e, quando pensamos que estamos evoluindo, vem a notícia da morte de seis quilombolas”, em Lençóis.
A chacina que ocorreu no dia 8 de agosto e que pode estar relacionada com o processo de demarcação do Território do Quilombo de Luna pelo Incra, também repercutiu em outros pronunciamento ao longo da tarde de ontem. A disputa fundiária na região já vitimou oito negros em um período de 30 dias.
ENTREATOS
A sessão se desdobrou em três atos ao abrir espaço na programação para a Empresa de Correios e Telégrafos lançar ofi cialmente os selos comemorativos pelos 30 anos do CDCN e a secretária da Promoção da Igualdade e Reparação, Fabya Reis, dar posse aos novos conselheiros eleitos. Foram homenageados também nove coletivos que contriuíram com o conselho na luta pelas ações afi rmativas. Outras seis personalidades que compuseram o CNDC receberam placas honoríficas.
Entre um ato e outro, os berimbause atabaques do Centro Cultural Capoeira Besouro Mangangá deram base para Tonho Matéria recitar uma ode à luta negra. As vozes poderosas do presidente da Federação Nacional de Afoxés, Nadinho do Congo, e de Germaninho do Ijexá da Bahia, entoaram cantos que empolgaram o plenário.
O proponente da sessão Bira Corôa procedeu a composição da Mesa de Honra e avisou que falaria pouco para dar oportunidade a todos os inscritos, além das atividades previstas. Ele lembrou que o conselho foi fruto da organização dos movimentos negros, do povo de santo, afoxés e blocos em torno do combate e do enfrentamento ao racismo e à discriminação racial.
“A Bahia e o Brasil ainda estão longe do ideal, mas não podemos negar que existiram avanços”, disse. Ele ressaltou que a sessão ocorreu em um dia emblemático não só pela comemoração dos 30 anos do CDCN como também pelo fato de ter sido nesta mesma data, “há exatos 365 dias, que a Constituição foi rasgada peloCongresso” ao depor a presidente Dilma Rousseff.
A sessão de ontem teve como conferencista a sociólogaVilma Reis, ex-presidente do CDCN. Ela também se referiu ao impeachment, dizendo que “a Bahia se transformou em um verdadeiro bunker” de resistência constitucional.
Depois, classifi cou a iniciativa dos Correios como “atitude republicana” e lembrou que a empresa sempre teve em seus quadros muitos negros. “Mas queremos que os negros passem a ocupar também os cargos mais elevados”, disse. Ela também afi rmou que a base do surgimento da Caixa Econômica Federal foram as poupanças criadas pelas irmandades negras.
Vilma Reis descreveu o ambiente que levou Waldir Pires a criar o conselho em 1987 e, dez anos depois, a promotoria de combate ao racismo.
Um pouco dessa história também foi contada pelo desembargador Lidivaldo Britto, que foi um dos entusiastas da criação da promotoria especializada e membro do CDCN.
Também se pronunciaram ontem a secretária Fabya Reis, o conselheiro Ademir Santos, a promotora Lívia Sant’Anna, a procuradora Cléia Costa, a representante do Movimento das Mulheres Negras, Josiane Climaco; Diogo Cerqueira, da Convergência Negra; e Jucelho Cruz, representante dos Povos e Comunidades Tradicionais
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