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Sessão na AL e selo marcam os 180 anos da Casa de Oxumarê

Publicado em: 20/08/2016 00:00
Editoria: Diário Oficial

A sessão em homenagem à instituição foi proposta pelo petista Bira Corôa
Foto: Arquivo/Agência-Alba
Como manda a tradição, na sexta-feira, Dia de Oxalá, o plenário da Assembleia Legislativa da Bahia foi tomado por pessoas vestidas de branco que estavam ali para celebrar os 180 anos de fundação do terreiro Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó, conhecido como Casa de Oxumarê. Na sessão especial proposta pelo deputado Bira Corôa (PT), presidente da Comissão de Igualdade Racial, aconteceu também o lançamento do selo comemorativo dos Correios em homenagem a centenária casa de culto afro.

Mães e pais de santo, além de representantes de dezenas de terreiros da Bahia e de outros estados, de entidades e do poder público prestigiaram o evento marcado por discursos em prol do fortalecimento da identidade afro-brasileira e da tolerância religiosa. Cantos e saudações em iorubá mostraram a beleza dos rituais da religião afro-brasileira. A  Casa de Oxumarê está localizada na Federação.

“O candomblé não é uma espaço de maldade como é visto”, afirmou o babalorixá da Casa de Oxumarê, Babá Pecê, em discurso que encerrou a sessão especial.  “As pessoas ainda não podem frequentar o seu trabalho com seu torços porque ela é tida como macumbeira, que faz o mal, e não como uma praticante respeitosa de sua religião.  Esses homens e mulheres ajudaram a construir nosso país, com sua capacidade e inteligência e merecem todo respeito”, acrescentou ele.

 A fala de Babá Pecê é legitimada pelo terreiro em que está à frente. A Casa Oxumarê é uma das maiores referências para o movimento negro e na luta pelos direitos humanos. Desde a fundação, em 1836, na Rua das Grades de Ferro, se sucederam na liderança da Casa de Oxumarê oito gerações religiosas compromissadas com os orixás e com a humanidade, semeando compaixão, dignidade, respeito e benevolência. E para se transformar em um importante patrimônio cultural e histórico do Brasil enfrentou perseguições e lutou contra a intolerância religiosa desde que foi fundado. 

Para Bira Corôa, os 180 anos da Casa de Oxumarê é uma prova concreta e sólida da resistência do povo negro por uma sociedade mais justa e igualitária. “A nossa luta é por uma sociedade na qual homens e mulheres não sejam discriminados pela cor da pele, orientação sexual e pela faixa etária”, afirmou Bira, acrescentando que “a opressão simbolizada pela escravidão ainda tem reflexos nos dias de hoje através da igualdade social e da intolerância com o povo do candomblé”.

Presente na sessão, o historiador Jaime Sodré afirmou que, hoje, o bairro da Federação é um dos mais arborizados de salvador por causa do compromisso do povo de santo com o meio ambiente. “A preservação da natureza é um elemento fundamental de nossa religião”, afirmou ele, citando também o papel social e educativo que os terreiros têm nas comunidades de Salvador. “Essas casas são essenciais para o fortalecimento das comunidades onde estão localizadas”. 

A secretária estadual de Promoção da Igualdade Racial, Fabya Reis, aproveitou o evento para reafirmar que o governo baiano não vai tolerar que nenhuma religião seja desrespeitada nos seus direitos, seus rituais, seus compromissos. “O estado é laico e precisa fazer da tolerância religiosa uma profissão de fé”. 

Já a ialorixá Mãe Bete de Oxalá chamou atenção para importância da tradição oral no candomblé. “Somente repetindo  essas histórias é que teremos talvez respostas para muitas coisas  diante de  de uma sociedade tão hipócrita e confusa”, afirmou. Representantes de dezenas de outros terreiros, como o de Gantóis e o Ilê Axé Opô Afonjá, também marcaram presença no evento.
A história da Casa de Oxumarê remete à época da formação do candomblé no Brasil. A sua origem remonta ao início do século XIX e foi marcada pela luta e resistência de africanos escravizados que, obrigados a abandonarem suas terras e laços familiares, não renunciaram à sua cultura e fé. 

Seu fundador Bàbá Tàlábí, oriundo da antiga cidade Kpeyin Vedji, localizada a noroeste de Abomey, aportou em Salvador em 1795 na condição de escravizado. Foi um sacerdote com grande propriedade para introduzir e difundir o culto aos Òrìsà no Brasil, por pertencer a uma das mais relevantes famílias de Culto à Sakpata (Ajunsún), na África.

Depois de liberto, Bàbá Tàlábí  se torna um dos maiores responsáveis pela manutenção da cultura e religiosidade africana no Brasil. Ele possuía um estabelecimento no Mercado de Santa Barbara, em Salvador, onde vendia dendê e outros produtos utilizados no culto aos Orìsàs que importava do continente africano. Viajando frequentemente à África com finalidade de abastecer sua loja, aproveitava para renovar os seus conhecimentos religiosos, chegando a trazer sacerdotes africanos para enriquecer o culto às divindades na Casa Òsùmàrè e na Bahia.
 
Em 13 de outubro de 1845, Bàbá Tàlábí adquire um novo imóvel, desta vez uma roça, na Cruz do Cosme, solidificando um templo que se tornaria um dos símbolos de resistência do povo negro da Bahia – a Casa de Oxumarê.


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