Foi uma festa. Um reencontro, autêntico, de várias gerações de frequentadores da biblioteca Monteiro Lobato em Nazaré, o ato de lançamento do livro “Denise Tavares, a Fada dos Livros”, escrito pela jornalista Aurora Vasconcelos e pelo publicitário e professor Fabiano Oliveira Viana para a coleção “Gente da Bahia”, editado pela Assembleia Legislativa. É o título de número 46 dessa coleção projetada inicialmente para 20 volumes, voltada para o resgate da memória de baianos célebres nos mais variados campos de atividade através de breves perfis biográficos.
Em meio à animação e o burburinho das conversas dos grupinhos que se formaram, por faixa etária (com presenças ocasionais de filhos e netos), descendentes da fundadora da primeira biblioteca totalmente voltada para as crianças da Bahia elogiaram a iniciativa do Legislativo em reconhecer e homenagear a educadora e bibliotecária tenaz, que concretizou esse projeto com muita luta. Wilson José Fernandes, irmão de Denise Tavares, foi além e parabenizou o presidente Marcelo Nilo pelo programa editorial da Assembleia.
LOBATO
Impedido de comparecer ao lançamento, o deputado Marcelo Nilo disse que não foi um frequentador dessa biblioteca, pois chegou a Salvador para estudar e prestar vestibular, mas tem pleno conhecimento do impacto causado por essa novidade em uma Bahia ainda provinciana de mais de meio século atrás. Era a época da “Hora da Criança”, do professor Adroaldo Ribeiro Costa, através do rádio, de montagens infantis de peças teatrais e outras atividades culturais de grande impacto nas gerações seguintes. Ele parabenizou os autores Aurora Vasconcelos e Fabiano Viana pelo trabalho preciso, de fácil leitura e amplo alcance que realizaram, bem a como toda a equipe da biblioteca Infantil Monteiro Lobato.
O clima no lançamento foi tão descontraído que os habituais discursos foram abolidos e os representantes do presidente Marcelo Nilo, professor Délio Pinheiro, assessor para Assuntos Culturais do Legislativo, e do governador Rui Costa, Zulu Araújo, diretor Geral da Fundação Pedro Calmon, se limitaram a conversar com os dirigentes atuais da biblioteca e com os presentes. Ambos encararam a longa fila de autógrafos junto com os demais presentes num salão decorado com imagens dos personagens de Lobato e de painéis ilustrados com informações sobre a vida, a obra do escritor e da própria biblioteca.
Frequentador da biblioteca desde os seis anos, pois morava no vizinho bairro da Saúde, Délio Pinheiro diz que abriu os olhos para a literatura ali, quando a sede ainda era o chalezinho que guardava material para a manutenção da praça e revelou que era “apaixonado” por Denise Tavares que, frisou era uma mulher linda. O ex-deputado federal e ex-juiz Gorgônio Neto foi outro frequentador assíduo que sucumbiu ainda na primeira infância aos olhos “cor de mel” da bibliotecária. Já o jornalista Gutemberg Cruz, a maior autoridade em quadrinhos da Bahia e um dos maiores do Brasil, frequentou “a Monteiro Lobato” aos 17 anos, fazendo palestra e participando de eventos a convite de Denise Tavares – um verdadeiro anjo que ajudou a popularizar o quadrinho, a HQ, em uma época em que era demonizada.
As dificuldades superadas por Denise Tavares foram simplesmente incríveis e desanimariam a qualquer um que não tivesse aquela tenacidade, pois ela era apenas uma professora no início dos anos 50 observou a atual diretora da instituição, Rita Telles. A escolha do nome de Monteiro Lobato, maior escritor infantil brasileiro, nacionalista que chegou a ser preso e acusado de comunismo (por defender a tese de que o Brasil tinha petróleo) também não ajudou. Internacionalmente era a época do anticomunismo extremado – mas tudo foi superado e a homenagem ao criador de narizinho, a menina do nariz arrebitado, o comoveu a extremo e foi uma das últimas que recebeu em vida.
Ela dirigiu a biblioteca durante 24 anos, enfrentando o descaso das autoridades e a hostilidade de rivais e desafetos, insatisfeitos com o que considerava um desperdício: uma biblioteca inteira voltada para crianças, mas o seu desejo de criar uma sala de leituras para crianças, onde ricos e pobres, brancos e negros pudessem sentar-se lado a lado para ultrapassar a fronteira que os separavam, unindo-se no aprendizado, no riso e na descoberta de novos mundos, vinha de sua infância de menina pobre do interior baiano, lembrou Fabiano Oliveira.
Hoje, 64 anos após ter sido criada, a biblioteca funciona no mesmo lugar, em Nazaré. E segue recebendo crianças e adolescentes de escolas públicas e particulares para tardes, com apresentações de marionetes e de teatro, aulas de canto e sessões da Hora do Conto, nas quais ouvem histórias infantis contadas por especialistas. Denise Tavares nasceu em 2 de maio de 1925, na cidade de Nazaré. Formou-se em professora em 1942. O diploma de biblioteconomia ela obteve em 1958, pela Ufba – e depois de ter criado várias bibliotecas infantis no interior baiano e escrito livros sobre educação infantil, sendo e conhecida nacionalmente.
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