Ao concluir seu discurso ontem na Assembleia Legislativa da Bahia, o presidente do projeto Axé, Cesare de Florio La Rocca, contou que certa vez pediu a um dos adolescentes que resumisse o que o projeto fez por ele em uma palavra. Depois de pensar um pouco, o jovem, chamado Marcelo, que antes de ingressar no projeto era conhecido como “o terror da Joana Angélica”, perguntou se poderia usar duas e agradeceu: “Valeu, velho!”.
De uma maneira bem mais formal, foi isso que a Assembleia Legislativa expressou ao conceder, em sessão especial na manhã de ontem, o título de cidadão baiano a esse italiano que está no Brasil há 47 anos e fundou o projeto Axé há 25. O sentimento de gratidão foi expresso por todos que discursaram no evento, entre eles os proponentes da homenagem, a deputada Maria del Carmen (PT) e o secretário estadual de Turismo, Nelson Pelegrino, também do PT.
Para a petista, o projeto Axé é um “tapa na cara” naqueles que não acreditam em uma parcela da juventude. “O projeto Axé sempre buscou resgatar os excluídos e os destituídos dos seus direitos unindo a ética fundamentada nos direitos humanos à estética baseada na compreensão da arte”, observou a deputada. De acordo com Pelegrino, o Projeto Axé veio para cuidar daqueles que muitos achavam que não tinha nenhuma solução. “O Axé, com sua pedagogia e profissionalismo, influenciou toda uma geração de projetos no Brasil, que passaram a copiar seu modelo e a sua expertise”, afirmou.
Apesar de a sessão ter sido marcada para conceder o título de cidadão baiano a Cesare de La Rocca, os 25 anos do projetos foram lembrados e homenageados durante o evento. La Rocca conta que, apesar de o projeto ter sido apresentado há muitos anos, ele relutou muito para receber o título. “Não que não quisesse receber o título. Eu só achava que essa homenagem deveria ser reservada as grandes personalidades”, justificou, em seu discurso.
A julgar pela presença maciça de autoridades, amigos, integrantes do projeto Axé e representantes de entidades em geral, La Rocca deveria ter aceitado a homenagem há muito tempo. E as muitas pessoas que estiveram presentes no plenário da Assembleia também foram agraciadas com apresentações de capoeira e dança afro feitas por alunos do projeto, que tem na arte, cidadania e educação os seus pilares básicos.
O secretário de Justiça da Bahia, Geraldo Reis, foi uma das autoridades que prestigiaram o evento. “Ao mesmo tempo que nos cabe valorizar e reconhecer o compromisso social do Projeto Axé nos cabe valorizar também esse homem, que possui nobreza de pensamento nobreza, de ações, e também a impaciência com a morosidade burocrática os entraves que o impede de transformar pessoas”, resumiu o secretário que, durante o evento de ontem, foi considerado “Amigo do Projeto Axé”.
Cesare de La Rocca chegou ao Brasil em 18 de janeiro de 1968 como integrante de um grupo de católicos que tinha curiosidade em conhecer a Amazônia. “Pretendia ficar no país por apenas um mês, mas a beleza da terra e sua riqueza natural quase intocada o atraíram. O italiano, então, com 29 anos, decidiu ficar no país”, contou Maria del Carmen, em seu discurso. Ao ficar, acrescentou ela, assumiu o desafio que poucos brasileiros enfrentam: combater as desigualdades sociais e trabalhar pela juventude abandonada.
Sua inquietação o levou, há 40 anos, a fundar uma das primeiras entidades voltadas para crianças excluídas no Amazonas, o Centro Social Nossa Senhora das Graças, em Manaus, no Beco do Macedo, a maior favela da capital na época. Nele, dirigiu durante muitos anos uma escola profissionalizante para 400 adolescentes e uma pré-escola para 200 crianças, denominada Gurislândia.
Em 1981, transferiu-se para o Rio de Janeiro, a convite da extinta Fundação Nacional do Bem Estar Social (Funabem), onde, durante três anos, trabalhou como assessor-técnico. No ano de 1983, passou a atuar no Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), quando coordenou, por mais de dois anos, o Projeto “Alternativas de Atendimento a Meninos e Meninas de Rua”.
“Cesare La Rocca almejava um projeto transformador para as crianças e adolescentes mais carentes. Surgiu, então, a ideia que se materializaria, pouco depois, no Centro Projeto Axé de Defesa e Proteção à Criança e ao Adolescente.
Portanto, em meados de 1989, o marco metodológico do futuro projeto estava pronto”, acrescentou Maria del Carmen. “Este compromisso, hoje, está substancializado em uma vitoriosa e aclamada experiência educacional: o Projeto Axé, que não se limita apenas a trabalhar com jovens em situação de rua, mas com todas as pessoas excluídas e destituídas de seus direitos”.
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