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Mãe Stella recebe a Comenda 2 de Julho no Poder Legislativo

Publicado em: 15/08/2015 00:00
Editoria: Diário Oficial

Ialorixá foi a primeira autoridade de uma religião africana a ser agraciada com a honraria
Foto: Paulo Mocofaya/Agência-Alba
Primeira mãe de santo a ocupar uma cadeira na Academia de Letras, Mãe Stella de Oxóssi conseguiu outro feito inédito, na manhã da última sexta-feira, dia 14, na Assembleia Legislativa: foi a primeira autoridade de uma religião africana a receber a Comenda 2 de Julho, concedida pelo Poder Legislativo a pessoas que contribuíram para o desenvolvimento da Bahia e do Brasil. 

A sessão na qual a ialorixá foi homenageada, proposta pelo deputado Marcelino Galo (PT), encheu o plenário do Legislativo. Representantes de dezenas de terreiros, da comunidade acadêmica, parlamentares e autoridades em geral compareceram ao evento e receberam Mãe Stella de pé, ao som dos atabaques, numa demonstração do carinho e respeito que a ialorixá detém na Bahia. A honraria de conduzi-la pelo plenário coube ao deputado Rosemberg Pinto (PT) e ao vereador Edvaldo Brito (PTB).

Em seu discurso, Marcelino Galo pediu desculpas por eventuais deslizes, esquecimentos ou erros e justificou: “Não é fácil homenagear quem já foi homenageada e eleita pelos orixás”. Para ele, Mãe Stella já recebeu o maior ato de reconhecimento que poderia existir. “Uma sacerdotisa que faz a comunicação entre os membros da comunidade e os orixás, cultuando as divindades e preservando a identidade, memória e história deste povo e, ainda, desenvolvendo a nossa espiritualidade”.

Autora de diversos livros, como Meu tempo é agora e Òsòsi, o caçador de alegrias, Mãe Stella é uma das personalidades mais respeitáveis da cultura afrobaiana e a sua importância se traduz também em diversas obras culturais e sociais como a criação do Museu Ilê Ohun Lailai, da Escola de Ensino Fundamental Eugênia Anna dos Santos, e da Feira de Cultura Africana Afonjá. 

Mas, ao receber mais uma homenagem, Mãe Stella agradeceu com a simplicidade habitual. “Depois de tanta emoção, de tanta alegria, o que me resta é agradecer a todos vocês. Na minha vida, nunca vi uma mãe de santo receber uma homenagem com essa. Por isso, tenho que agradecer ao Divino e ao Sagrado e pedir que nos dê força e energia para manter nosso compromisso com a verdade. Na minha vida sempre procuro melhorar. Um beijo a todos e até uma próxima vez”, afirmou a ialorixá, sendo reverenciada pelos presentes.

Até quem não pôde comparecer, fez questão de deixar uma mensagem para Mãe Stella, a exemplo do ex-governador e ministro da Defesa, Jaques Wagner (PT), da ex-primeira-dama Fátima Mendonça e da senadora Lídice da Mata. Para Wagner, a ialorixá “é uma das grandes responsáveis pela difusão e fortalecimento das religiões de matriz africana”. Já Lídice a colocou como “um exemplo de luta contra intolerância” e que essa foi uma das características marcante das mais sete décadas de Mãe Stella como sacerdotisa.

O presidente da Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá, Ribamar Daniel, também discursou na sessão e afirmou que a homenagem é uma lembrança do quanto é importante manter acesa a história dos descendentes africanos. Questão levantada também por Marcelino Galo: “O povo oprimido precisa conhecer, contar e reafirmar a sua história, senão aquela que fica é a dos opressores”, alertou ele.

BIOGRAFIA

Mãe Stella de Oxóssi nasceu no dia 2 de maio de 1925, na Ladeira do Ferrão, no Pelourinho, na cidade de Salvador. É a quarta filha de Esmeraldo Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Com o falecimento de sua mãe foi morar com sua tia Arcanja, que tinha santo assentado com Mãe Menininha. Sua iniciação ocorreu em 1939 por Mãe Senhora, no Opó Afonjá.

Ela estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora e formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de 30 anos. Em 19 de março de 1976, foi escolhida para ser a quinta ialorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1999.

Estiveram presentes na sessão especial: o vereador e ex-governador Waldir Pires; o secretário estadual da Cultura, Jorge Portugal; os reitores Silvio Luiz de Oliveira Soglia (Universidade Federal do Recôncavo) e José Bites de Carvalho (Universidade do Estado da Bahia, a cônsul de Cuba Bahia, Laura Pujol; o presidente da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, a procuradora Márcia Virgens; ialorixás e filhos de diversos terreiros, além de outras autoridades. 



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