MÍDIA CENTER

Assembleia Legislativa reverencia memória do combativo Luiz Leal

Publicado em: 10/07/2015 00:00
Editoria: Diário Oficial

A coerência política e a retidão de caráter foram marcas indeléveis na trajetória do ex-deputado
Foto: Arquivo/Agência-Alba
 O falecimento ex-deputado Luiz Leal, ocorrido ontem, consternou o mundo político da Bahia onde a sua retidão e coerência política rivalizavam com a sua urbanidade, mesmo nos momentos mais difíceis. O velório aconteceu na Câmara Municipal de Salvador, a partir das 17h, e o sepultamento será hoje, às 11h30, no cemitério Jardim da Saudade. Ele completaria 89 anos no dia primeiro de setembro.
O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Marcelo Nilo, decretou luto oficial de três dias em reverência ao “homem público e cidadão exemplar que a Bahia e o Brasil acabam de perder”. Solidário com os familiares e os muitos amigos que o “doutor Luiz” conquistou em vida, rogou a Deus que lhes confortasse, pois é certo que nunca o esquecerão. “Nós, os políticos, parlamentares ou não, teremos dele sempre o exemplo a perseguir”, acrescentou.

O deputado Marcelo Nilo observou que não teve o “privilégio” de conviver no parlamento com Luiz Leal, mas o conheceu trabalhando pelo bem da Bahia e dos baianos na luta contra as forças do “obscurantismo” e também no labor diário de médico humanitário que sempre foi. Presidente do Legislativo há oito anos, ele considera como ponto alto nesse prestigioso cargo, a devolução, simbólica, dos mandatos que foram usurpados de baianos dignos “como Luiz Leal” pela força da ditadura.

Ao ato simbólico da devolução, que contou com a presença do governador Jaques Wagner, em 31 de março do ano passado, Luiz Leal compareceu mesmo enfrentando problemas de saúde. Ele veio ao Legislativo com a altivez que sempre o caracterizou receber de volta o diploma de deputado estadual de que fora privado em 14 de março de 1969 pelo AI-5.

COERÊNCIA E RETIDÃO

Luiz Leal formou-se em Medicina na Universidade da Bahia, em 1951, e iniciou sua vida pública aos 38 anos, elegendo-se pelo PSD para a Câmara Municipal de Salvador. Em 1964, foi um dos dois vereadores que votaram contra o impeachment do prefeito Virgildásio de Senna, deposto pelo Exército. Da tribuna da Câmara, apesar das ameaças de prisão, fez um duro discurso em defesa da legalidade – um dos primeiros atos públicos contra o golpe militar na Bahia. “O eleitor não me conferiu poderes para cassar seu voto. Nem me permito atingir esse nível de arrogância”, disse. 

Em 1965, Leal participou da fundação do MDB estadual. A partir de 1966, assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa. Presidente do MDB em Salvador, uniu políticos, estudantes e operários na primeira grande manifestação baiana contra a ditadura, no Primeiro de Maio de 1968. Com Josaphat Marinho, promoveu debates em bairros que resultaram no seu enquadramento na legislação autoritária, sob a acusação de “levantar o ânimo do povo contra o movimento militar de 1964″. 

Foi cassado e demitido do serviço público, mas isso não o afastou da atuação política. Em seu consultório médico, no Largo de Roma, em Itapagipe, atendeu a militantes clandestinos. Nos anos 70, aproximou-se do grupo do deputado federal Chico Pinto, dos “autênticos” do MDB. Com a anistia, filiou-se ao MDB, que secretariou e presidiu. Luiz Leal foi uma das principais lideranças baianas durante a redemocratização, ao lado de amigos como Chico Pinto e Rômulo Almeida. Em 1984, atuou como organizador do movimento “Diretas-Já” no estado. 
Em 1986, articulou a candidatura de Waldir Pires ao governo estadual e retornou à Assembleia como um dos mais votados. Em 1989, coordenou na Bahia a campanha presidencial de Ulysses Guimarães, de quem era próximo. No final do mandato, escreveu uma carta amigável a Ulysses, agradecendo as lutas em comum e justificando a desfiliação do PMDB, que iniciava uma virada programática. Ingressou então no PDT então liderado por Leonel Brizola. 

Leal exerceu seu último cargo público entre 1993 e 1996, na Secretaria Municipal de Ação Social de Salvador, na gestão de Lídice da Mata. Em 17 de dezembro de 2013, prestou depoimento na Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa sobre suas atividades políticas na ditadura. Em 31 de março de 2014, a Assembleia lhe devolveu, simbolicamente, o mandato de deputado.



Compartilhar: