O esporte feminino na Bahia foi tema ontem de audiência pública conjunta das comissões de Deporto, Paradesporto e Lazer e a dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa. O futebol é a mais desassistida entre todas as modalidades esportivas femininas, analisa o presidente da Comissão de Desportos, deputado Bobô (PC do B). “Não temos nada”, informa André Beijoca, filho do lendário jogador Beijoca, do Bahia, atual treinador da equipe feminina do clube. “Não há nem mesmo o direito de treinar”, diz. Segundo ele, a atual diretoria do Bahia, sob a presidência de Marcelo Santana, retirou o pouco que se havia conquistado: o direito das atletas utilizarem o Fazendão nos sábados à tarde.
“O Esporte Clube Bahia não dá nada ao seu futebol feminino. E nem vai dar”, segundo Beijoca. Ele diz que a atual diretoria já avisou que não patrocina nenhuma modalidade esportiva. “ O objetivo é levar o time de volta à primeira divisão” do futebol masculino. Assim, lamenta o treinador, “estamos de fora de todos os campeonatos, como o Baiano, a Copa do Nordeste e o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, competição na qual o clube não investe nada uma vez que o patrocínio fica com a Caixa Econômica Federal e CBF”. Beijoca pediu que o Bahia concedesse ao menos a camisa para o campeonato deste ano.
ABNEGADOS
Ainda assim, ele pretende retomar os treinos na próxima semana. O futebol feminino da agremiação está parado desde que a atual diretoria assumiu o clube. Antes, as atletas pagavam para treinar. Sem ter qualquer apoio, André Beijoca faz rifa de uma camisa do time e procura pessoalmente torcedores admiradores do seu pai, o ex-jogador Beijoca, e “ de pires na mão”, pede ajuda. Com esse dinheiro, “paga a Topic, em caso de participação em campeonatos nos interior e compra água para as meninas”. Antes, pagava também o aluguel de um campo de futebol society localizado no Imbuí. Depois passou a treinar de favor na academia de um amigo.
Melhor sorte tem Claudir Prado, presidente e treinador do Juventude, clube de futebol de Vitória da Conquista. Lá, garante, há dois anos tem “parceria com o poder público” e não falta estrutura e apoio para o treinamento de suas atletas. “A cidade nos dá respaldo”, adianta. É desta participação com os poderes públicos que o deputado Bobô está atrás.
A Comissão de Desporto “funciona como uma espécie de ouvidoria”, qualifica o presidente, adiantando que o que se debate no colegiado é encaminhado aos poderes públicos competentes nas três esferas: federal, estadual e municipal. Para Bobô, a Prefeitura de Salvador precisa “discutir o assunto e se envolver mais” nesta questão. Afinal, “a atividade esportiva acontece é na cidade”.
POLÍTICA
Ele espera contribuir para que haja uma “política clara de investimentos” no esporte na Bahia, com o necessário aumento dos orçamentos das partes que trabalham com o segmento. Para o vice-presidente do colegiado, deputado Manassés, do PSB, “pela primeira vez a Assembleia Legislativa está debatendo o esporte baiano” e buscando “as ferramentas certas” para que haja uma política pública que contemple a atividade. Para isso “a Casa está dando voz” a quem nunca foi ouvido.
Esta é também a opinião do presidente da Federação Baiana de Karatê Estilo Shotokan, Marcos Menezes. Ele advoga pela existência de “uma Secretaria de Esportes que defina e execute políticas públicas” satisfatórias também para o esporte amador. Presente à audiência pública com Emily Laranjeira, “única atleta da Bahia bi-campeã mundial”, ele lamenta a falta de patrocínio.
Ele elogia o Faz Atleta – programa de incentivo fiscal do governo do Estado - mas informa que nenhum empresário quer receber os desportistas, quanto mais financiá-los. É o caso de Emily, que paga, ela própria, suas despesas com hospedagem, alimentação, quimono, luvas e caneleiras. A Sudesb dá a passagem, quando de participação em campeonatos fora da Bahia. Para treinar, ela depende de bolsa.
Menezes informa que não tem dinheiro. “Somente neste ano a Federação já gastou R$ 8.000,00 e arrecadou R$ 150,00”. Sem receita, ele desabafa: “Esporte amador é para abnegado”. Reverter esta situação, dar “ maior visibilidade”, ampliar orçamentos públicos é o que espera a deputada Fabíola Mansur, do PSB, presidente da Comissão dos Direitos da Mulher e autora da proposta de audiência conjunta. Ela espera que os poderes públicos tenham “ um carinho especial” para com o esporte feminino, aumentem o orçamento “diminuto” destinado à área e definam uma política pública de inclusão das mulheres nas modalidades esportivas. E protesta: “as atletas têm menos patrocínio do que os homens!”.
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