A reforma política foi debatida ao longo da tarde de ontem, na Assembleia Legislativa, durante a sessão especial dedicada ao Dia Internacional da Mulher. Além do aspecto político do tema, instigado pelas proponentes da sessão, a deputada Fabíola Mansur (PSB), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher; e a deputada Luiza Maia (PT), o evento foi pleno de emoção ao fazer homenagem póstuma à professora Ana Alice Costa, figura de proa na luta por mais espaço para as mulheres, tendo sido uma das fundadoras do Neim (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher).
A proposta do evento era a realização de uma homenagem a Ana Alice, com a apresentação do coral Doce Vida (entre as cantoras, a mãe dela, Cenira), distribuição de buquês e entrega de uma placa em que a Assembleia reconhece o trabalho precursor da professora aos filhos Wladmir e Clarissa, e à mãe Cenira. Mas, em quase todos os pronunciamentos, quem ocupou à tribuna para saudar não esqueceu de falar sobre a situação política do país e a necessidade de reforma; e quem se dedicou a detalhar o que é preciso para mudar o país, o fez muitas vezes com a voz embargada com a lembrança da antiga companheira de lutas, morta em dezembro do ano passado.
CONVOCAÇÃO
A secretária de Políticas para as Mulheres do Estado, Olívia Santana, defendeu na sessão de ontem que “quando a gente olha para trás a gente vê que tivemos avanços importantes”, concluindo que “agora a realidade nos convoca a defender as nossas conquistas”. Em um pronunciamento entusiasmado, a secretária procurou falar da grandeza do momento e da importância do exemplo de Ana Alice. “Temos que tirar dessa crise - não sei como – uma reforma democrática, mesmo tendo um Congresso que é conservador, mas devemos isto a ela”. Ela fez uma defesa veemente da democracia. “Obtivemos a vitória em uma das eleições presidenciais mais duras da história e não podemos deixar ela ser solapada por discursos obscurantistas, aqueles que ousam sentir saudade de um passado que o povo brasileiro sepultou”.
“Eu preciso segurar a emoção”, confessou Luiza Maia durante a homenagem, definindo Ana Alice como “nosso farol”. Ela criticou o ajuste fiscal promovido pela presidente Dilma e disse que o que está em crise é o sistema capitalista. “Um sistema que deixa bilhões de pessoas com fome não é a alternativa”, definiu, pedindo a saída imediata do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Fabíola, que copresidiu a sessão com Luiza, considerou, por sua vez, a sessão “tão importante porque une uma mulher que nos inspira a todos a um tema tão atual”. Ela disse ainda que “empoderamento da mulher” não perde a atualidade porque os avanços são muito poucos. Estamos há séculos sub-representadas”, disse. O presidente Marcelo Nilo (PDT) já havia lamentado, no início da sessão, que a representação feminina tenha se reduzido de dez para sete deputadas. Fabíola destacou que seu partido é um dos poucos a ser presidido por uma mulher, a senadora Lídice da Mata, na Bahia.
REFORMA
A professora Salete Silva recitou um cordel dedicado à colega da Ufba e a professora Iole Vanin a sucedeu para falar um pouco, entre lágrimas, sobre o trabalho de Ana Alice, “uma das principais pensadoras teóricas dos estudos de gênero, feminismo e poder”. Ela lembrou uma frase dita pela colega em 2007 e que continua tão atual: “Se a reforma política que está posta na ordem do dia não tiver a voz e a vez das mulheres, corremos um risco”.
“Uma reforma política sem que haja uma grande e justa representação de mulheres em sua elaboração não vai passar de uma grande falácia, a exemplo das experiências do passado”, definiu, defendendo uma reforma para além da questão eleitoral. “Uma reforma política tem que mudar a cultura política”, defendeu. Objetivamente, ela citou três aspectos que são propostos pelas feministas e que precisam estar no debate: a eleição por lista fechada, financiamento público de campanha e um projeto de educação política para os partidos políticos que permita o empoderamento das mulheres.
Falaram ainda na tarde de ontem, Wladmir Costa, em nome da família de Ana Alice, a vice-presidente da Comissão das Mulheres, Neusa Cadore (PT), representando as deputadas Ângela Sousa (PSD) e Maria del Carmem (PT), que abriram mão de suas falas; a presidente da Comissão de Defesa de Mulheres da Câmara de Vereadores, Aladilce Souza; o subdefensor Público Geral, Rafson Ximenes; a presidente do Conselho Municipal da Mulher, Madalena Noronha; coordenadora do Neim, Rosângela Araújo. A sessão acabou ao som de “Brincar de Viver”, na voz de Maria Bethânia.
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