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Livros de Wilson Lins são lançados em evento na Academia de Letras

Publicado em: 16/10/2014 00:00
Editoria: Diário Oficial

A solenidade de ontem no Palacete Góes Calmon atraiu representantes dos mais diversos setores culturais da Bahia, além de familiares do escritor
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O Palacete Góes Calmon, aprazível espaço que sedia a Academia de Letras da Bahia, presenciou o reverdecer da obra de um dos mais importante e influentes intelectuais baianos, o acadêmico, romancista, ensaísta, jornalista e político Wilson Lins. A Assembleia Legislativa, em parceria com a Academia de Letras da Bahia (ALB), lançou, ontem (15) na Casa das Letras, três livros do autor, como parte da Coleção Mestres da Literatura Baiana: Os Cabras do Coronel, (1964), O Reduto (1965) e Remanso da Valentia (1965). Os romances formam uma trilogia sobre a forma tirana e déspota que coronéis e jagunços do Médio São Francisco exerciam o poder na região, tendo como principal cenário Pilão Arcado, sua cidade natal. O lançamento contou com a presença dos filhos do autor, José e Wilson Lins, do presidente da AL, Marcelo Nilo, e do presidente da ALB, Aramis Ribeiro, acadêmicos e intelectuais baianos.
Wilson Lins (1920-2004) é o nome do prédio anexo da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, onde estão instalados os gabinetes dos deputados, o que dá uma medida da influência que teve na política baiana de sua época. Com o lançamento da sua trilogia sobre a saga seus livros a Coleção Mestres da Literatura Baiana chega a sete títulos lançados. Como o nome deixa claro, o objetivo da parceria ao realizar esse trabalho é publicar obras fundamentais da literatura baiana de todos os gêneros (poesia, romance, ensaios, crônicas, contos, biografias), tendo sempre como critérios a qualidade da obra e sua elevada importância no cenário da literatura baiana. Entres os autores que já foram relançados, estão Hildegardes Vianna (A Bahia já foi assim), livro de Hélio Pólvora e uma Antologia poética de Afonso Manta. Os próximos lançamentos, acrescentou o assessor para Assuntos de Cultura, são Histórias da gente baiana, de Vasconcelos Maia, e O telefone dos mortos, contos do jornalista João Carlos Teixeira Gomes, o Joca.
O presidente da ALB, o acadêmico Aramis Ribeiro afirmou que a parceria com a Assembleia Legislativa da Bahia é de enorme importância para corrigir um crônica e vergonhosa situação do Estado: a falta de publicidade das obras de autores baianos em relação ao resto do país, o que leva ao isolamento da literatura produzida no estado. “ A coleção contempla autores vivos ou mortos, publicando obras de grande qualidade. Está entre as melhores produzidas no país, poderia fazer parte do cânone nacional”, afirmou Aramis Ribeiro, ressaltando que o presidente da AL, Marcelo Nilo, recebeu em 2012 a Medalha Arlindo Fragoso, honraria da Academia de Letras da Bahia, destinada a pessoas que prestaram serviços relevantes a literatura baiana.
O presidente Marcelo Nilo disse que após as eleições, que lhe conferiram o seu sétimo mandato como deputado estadual consecutivo, ele fez questão de que sua primeira participação em ato público fosse na Academia de Letras da Bahia. Ele contou que quando assumiu a presidência da Assembleia Legislativa, há praticamente oito anos, existiam três metas que vêm norteando a sua gestão: fazer da AL um poder independente, mas buscando a harmonia com as outras instâncias; tornar a Assembleia Legislativa realmente a “Casa do Povo”, abrindo os seus espaços para todos o movimentos sociais que precisam de visibilidade; e fazer da AL também a Casa da Cultura. “Nós baianos sabemos que nascer nessa terra é uma dádiva de Deus, mas poucos conhecem realmente nossa história”, disse o presidente, salientando que a AL busca recuperar a história tanto de mitos urbanos, como no caso da Mulher de Roxo, que teve a história da sua vida retratada na Coleção Gente da Bahia como desvendar a complexidade do pensamento de um intelectual como Ruy Barbosa, que teve a sua biografia realizada por Luiz Viana também editada pela AL, com grande repercussão em todo país.

OS CABRAS DO CORONEL

Os cabras do Coronel (1964) inicia a saga descrita na trilogia de Wilson Lins. Assim como nos dois livros da trilogia, a história é contada através de capítulos curtos, de forma linear e concisa, com discretas retrospectivas. O enredo desse primeiro romance é basicamente a fuga e a perseguição de Domingos Amarra Couro – um dos homens da prostituta Doninha Calango. Enlouquecido de amor, o cabra decide trair o coronel e abandonar a vida de jagunço para viver em paz com a sedutora Doninha e é perseguido implacavelmente pelos ex-companheiros. “Fuga e perseguição servem de pretexto para a apresentação das desavenças dos coronéis no ambiente violento e rude, onde a figura do coronel de Pilão Arcado, que outro não é senão o coronel Franklin, é onipresente e onipotente, embora nesse romance, não apareça uma única vez, e não tenha nome, sendo apenas denominado de ‘o Coronel’ ou o ‘Vermelhão’”, descreveu Aramis Ribeiro, na apresentação do livro.
O Reduto segundo livro da trilogia é narrado em um ritmo acelerado, sem as chamadas “literatices”, sem conceituações ou digressões, a não ser as que se entrosem profundamente com o caso contado. Já Remanso da Valentia, último romance da triologia, conta a participação dos coronéis na luta contra a Coluna Prestes. A teatróloga, romancista e crítica de teatro, Zora Seijan, afirma na apresentação do livro que o Coronel Franco (que no primeiro romance não tinha ainda nome), passa a existir então, embora mais citado do que em ação direta. “Sua mulher surge nítida na história e recorda casos da velha família do São Francisco para erguer, numa técnica sutil, um cenário no tempo através do qual fica o leitor sabendo o que houve”, acrescentou Zora Seijan.
Ela explica que com a volta do coronel, a luta recomeça. “É a guerra. A guerra que Remanso da Valentia narra com vigor, na descrição do São Francisco dos coronéis bravios, sanhundos, dos navios chegando e saindo, das eleições feitas por meio de atas falsificadas, da enchente, dos mosquitos, do sol a pino (…). Wilson Lins documenta, com belo estilo ficcional, o fim de uma época que, no Brasil, corresponde a dos senhores medievais da Europa”, conclui Zora.



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