Cada vez mais em evidência desde que Daniel Alves comeu uma banana jogada por um torcedor em campo, durante uma partida do Barcelona, o racismo no esporte foi tema de audiência pública realizada ontem na Assembleia Legislativa da Bahia. Realizada pela Comissão Especial de Promoção da Igualdade, presidida pelo deputado Bira Corôa (PT), o evento contou com a participação de especialistas, representantes do poder público e do movimento negro, além da Federação Bahiana de Futebol (FBF).
Durante o encontro, sobraram críticas a campanha publicitária “#somostodosmacacos”, criada pela agência Loducca, em resposta ao pedido do craque brasileiro Neymar Jr.. “Essa campanha é um horror”, sentenciou no encontro a jornalista Cleidiana Ramos, editora do caderno especial “Fim de Jogo para o Racismo”, do Jornal A Tarde. Ela lembrou que viu apenas um negro participar dessa campanha, o próprio Neymar. E citou ainda o “oportunismo” de alguns que pegaram carona na campanha, como o apresentador Luciano Huck, dono da marca UseHuck, que lançou uma camiseta com os dizeres da campanha por R$ 69.
A jornalista fez comentários sobre a história do racismo e lembrou que, durante séculos, os negros foram desumanizados, comparados “a pouco mais” de macacos. “Por isso, a gente não pode fazer coro com uma coisa dessas”, afirmou.
Cleidiana lembrou ainda que, apesar de terem muitos jogadores negros, só existem dois técnicos afrodescendente na elite do futebol brasileiro, um deles Cristóvão Borges, que treinou o Bahia e hoje lidera o Fluminense. E quase nenhum dirigente. “Eles podem jogar bola, mas não tem capacidade para liderar clubes dentro dessa visão”, lamentou.
CRIME
Já a advogada Patrícia Lacerda, presidente da Comissão de Igualdade da Ordem dos Advogados do Brasil - secção Bahia (OAB-BA), lembrou que o movimento negro prega o lema “somos todos humanos”, para dar um fim na discriminação racial. “Quem vai discutir a questão racial? São os artistas brancos da Globo?”, criticou. Para ela, sobra a pecha de chato para quem quer debater profundamente a questão racial. “Mas precisamos sempre estar falando porque o racismo é um tragédia que viola a vida das pessoas das mais diversas formas”.
Patrícia Lacerda observou ainda que o racismo é um crime inafiançável no Brasil. Mas logo depois, questionou: “Quantas pessoas cumprem pena pela prática de racismo nesse país?”. Na avaliação da advogada, é preciso ter um olhar histórico para questão, para se ter um olhar ampliado. “A dor de ser negro, só quem é, sabe”.
O deputado Bira Corôa criticou os “anti-racistas de prontidão” que sempre aparecem depois de episódios como o da banana comida por Daniel Alves. Ele defende, por exemplo, que o Observatório Racial no Carnaval não fique restrito aos dias de folia, mas seja permanente. “Precisamos dessas medidas para ter a real noção do problema”, avalia.
Já o presidente do Conselho Fiscal da Federação Bahiana de Futebol, Carlos Ventura, lembrou que os casos de racismo não se restringem só ao futebol masculino. E lembrou o recente caso envolvendo as meninas de São Francisco do Conde. Em março, a equipe 13 vezes campeã baiana de futebol feminino foi alvo de ofensas racistas de torcedor na cidade de Araraquara (São Paulo, durante o jogo contra a Ferroviária (SP). “Esse episódio foi emblemático. Já entramos com um agravo na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e até hoje estamos aguardando uma respostas”, contou Ventura.
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