Legislativo faz sessão especial para reverenciar Jorge AmadoO deputado Álvaro Gomes (PC do B) abriu a sessão especial de ontem que propôs em homenagem ao centenário de Jorge Amado lançando mão da história de sucesso do escritor, comprometida com uma visão social. O deputado historiou os inúmeros títulos, nacionais e internacionais, recebidos por Jorge Amado e ressaltou sua veia comunista. Gomes criticou os que acusaram Jorge Amado de ter modificado sua obra e defendeu que o escritor sempre manteve em seus livros uma feição em defesa da "luta por uma sociedade mais justa e humana". O deputado declinou que "não poderia deixar de prestar esta justa homenagem" a Jorge Amado a quem creditou a realização de uma "obra digna".
Mas, além de reconhecimentos, a família tem esperanças de ver a casa onde morou Jorge, no Rio Vermelho, transformada em museu. "Este era o grande sonho de minha mãe, ver a casa funcionando, aberta ao público", revelou João Jorge Amado, que representou a família na sessão especial de ontem. Ele, inclusive, solicitou audiência com o secretário de Cultura do Estado. Será recebido após o dia 7 de outubro. "Mais do que uma homenagem, o museu significa devolver à Bahia a visão do homem Jorge Amado."
Um homem que, na opinião de mãe Stella de Oxóssi, "não foi apenas figuração no Axé. Nos seus livros, nos seus escritos, ele sempre mostrou a seriedade e veracidade da nossa crença", atestou a ialorixá, que revelou ser recíproco o orgulho que Jorge ostentava em ser ogã do Ilê Axé Opô Afonjá.
Além do mais, Jorge Amado "fez com que todos os baianos se vissem como personagens dos seus livros. Você termina de ler um livro dele, olha em volta e vê seus personagens. Na linguagem, no comportamento todos somos cabo Martins, Gabriela, Pé de Vento, Marialva", disse o cantor Gerônimo. Já, para o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo, difícil é dizer qual livro de Jorge mais o marcou. Ainda assim, elegeu Terra do Sem Fim como o mais marcante dentre todos os que compunham a coleção de livros de Jorge Amado que sua mãe possuía e indicava à leitura dos filhos. Nilo também participou das homenagens de ontem ao escritor.
RECONHECIMENTO
As comemorações pelo centenário de Jorge Amado começaram em agosto do ano passado em todo o país e em diversas partes do mundo. A família, representada por João Jorge e Paloma Amado, divide-se entre os eventos que têm acontecido em Londres, Paris, Berlim e Suíça. No Brasil, houve o lançamento do filme Capitães da Areia, da cineasta e neta do escritor Cecília Amado; a peça Dona Flor e Seus Dois Maridos e o lançamento de quatro livros das mulheres de Jorge, além da edição especial do livro inédito de cartas que Jorge trocou com Zélia enquanto estava no exílio. Em Salvador, Jorge Amado foi tema do Carnaval deste ano e da escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense. Na Bahia houve lançamento do livro Memórias de Alegria, de Myriam Fraga; a realização do Festival Amar Amado, em Ilhéus; a exposição Jorge, Amado e Universal, no Museu de Arte Moderna; o curso Jorge Amado, II Colóquio de Literatura Brasileira.
FAMA
Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, distrito de Ferradas, em Itabuna. Com apenas 1 ano de idade foi para Ilhéus. Em 1933, casou-se com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila.
Jorge foi militante do Partido do Comunista e esteve exilado na Argentina e no Uruguai. Foi eleito membro da Assembleia Nacional Constituinte de 1945 pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) sendo o deputado federal mais votado por São Paulo. Neste ano, se casou com Zélia Gattai.
Em 1947, nasce João Jorge, seu primeiro filho com Zélia, o PCB é declarado ilegal e seus membros, perseguidos e presos. Jorge parte, então, para novo exílio, desta vez na França, onde fica até 1950, quando é expulso. Um ano antes, em 1949, morre no Rio de Janeiro sua filha Lila. Entre 1950, e 1952 Jorge Amado viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma. Em 1961, 30 anos após a publicação do seu primeiro romance, foi convidado para a cadeira de número 23 da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono José de Alencar e, por primeiro ocupante, Machado de Assis.
O primeiro livro do escritor, que deixou 45 títulos publicados e traduzidos para 49 idiomas, O País do Carnaval, é de 1931. Jorge Amado escreveu também contos, poesia e foi coautor de diversas publicações. A obra e o autor receberam incontáveis homenagens e prêmios nacionais e internacionais. O escritor tinha um carinho especial pelo título de Obá, posto civil que exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia. Jorge Amado morreu em Salvador no dia 6 de agosto de 2001, quatro dias antes, de completar 89 anos. Seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas, no Rio Vermelho.
À sessão especial de ontem participaram estudantes, literatos, escritores e autoridades. Compuseram a mesa dos trabalhos os deputados Álvaro Gomes, proponente da homenagem, e Marcelo Nilo; o cantor Gerônimo, Mãe Stella de Oxóssi; Rômulo Cravo, representando o Governo do Estado; o cineasta Guido Araújo; o tenente-coronel Josapha Souza;o ex-governador Waldir Pires; João Jorge Amado, representando a família, e a professora Bohumila Araújo, estudiosa da obra do escritor.
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