Um dia para aprofundar a discussão sobre a cultura ancestral na identidade baiana. Foi com este objetivo que a Assembleia Legislativa realizou ontem sessão especial, proposta pelo deputado Rosemberg Pinto (PT), com a presença maciça de representantes das religiões de matriz africana, representantes do ativismo negro e cientistas especializados no assunto, a exemplo dos professores Júlio Braga e Marco Aurélio Luz, palestrante da noite.
A contribuição nos debates da senadora Lídice da Mata, do deputado federal Luiz Alberto e dos secretários estaduais Almiro Sena, da Justiça e dos Direitos Humanos, e Elias Sampaio, da Promoção da Igualdade, além do subsecretário municipal da Reparação, Edmilson Sales, e do vereador Moisés Rocha, conferiu indiscutível peso político ao evento.
"Desde que era estudante, via que a escola não tratava da religiosidade africana", contou Rosemberg, propondo um profundo debate que promova o resgate de uma cultura ancestral oficialmente neglicenciada. Ele foi bastante aplaudido ao defender que este resgate ocorra a partir das pessoas e falar sobre a perseguição que as religiões de matrizes africanas ainda sofrem.
Luiz Alberto ocupou a tribuna em seguida e disse que Salvador vive um fenômeno político que vai gerar um debate sobre o quinhão dos negros na sociedade baiana. Para ele, é ilustrativo que todos os candidatos a vice-prefeito nas próximas eleições sejam negros, além da existência de candidaturas fortes a vereador. Ele revelou também preocupação sobre a intolerância religiosa, que não acaba. "O Congresso tem três partidos evangélicos que investem contra as religiões de matrizes africanas", disse, lembrando que "na história temos sérios desastres quando se misturam política e religião".
REVOLUÇÃO
O pós-doutor em ciências sociais Marco Aurélio foi convidado à tribuna para falar da formação da sociedade e a importância do culto à ancestralidade no candomblé. A presença de Vovô do Ilê Ayiê inspirou Edmilson Sales, que afirmou: "Tudo começa no Ilê." Elias Sampaio foi além e considerou que a criação do concurso da Beleza Negra foi ainda mais revolucionário do que a fundação do bloco carnavalesco na década de 1970 por mudar o paradigma de que o belo tinha exclusivamente características brancas.
Lídice da Mata ocupou a tribuna para afirmar que os legislativos federal, estaduais e municipais são espaços da elite branca e que é esta a razão para sessões como a de ontem serem raras e, por isso, tão importantes. Ela lembrou da dificuldade que enfrentou para conseguir conferir o primeiro título de cidadão baiano a um pai-de-santo, o tata Anselmo.
Almiro Sena disse que sua presença à frente da Secretaria de Justiça e dos Direitos Humanos enegreceu a pasta mais antiga do estado, que teve seu primeiro secretário em 1826, em uma sociedade cuja elite, além de branca, era escravagista. "O governador Jaques Wagner é o responsável pela mudança", disse, contando que o governador definiu os novos rumos no momento que o convidou para a secretaria. Durante a sessão foram homenageados 16 terreiros de candomblé, além de Marco Aurélio e Júlio Braga. O evento teve a participação dos Filhos de Gandhy que, além de encher o ambiente ao ritmo de atabaque, xequerê e agogô, distribuiu água de cheiro entre os presentes.
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