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Comissão ouve do povo quilombola o desejo de participação política

Publicado em: 23/09/2011 00:00
Editoria: Diário Oficial

Moradores de Santiago do Iguape garantiram presença representativa no encontro de ontem
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O bravo povo cachoeirano, que esteve na linha de frente das batalhas pela independência na Bahia, mostrou que continua fiel à sua tradição vanguardista em defesa das causas justas. Ontem, na sede da Associação Cultural e Artística de Santiago do Iguape, os moradores do referido distrito, pertencente a Cachoeira, atenderam à convocação do colegiado da Promoção da Igualdade da Assembleia Legislativa e decidiram enfrentar um novo e histórico combate: promover a inserção prática dos quilombolas no processo político.
E esta luta pela conquista plena da cidadania se deu com altivez. Diante dos mais diversos representantes governamentais que participaram da audiência pública promovida pela comissão, eles apresentaram suas reivindicações de modo firme e sereno. Protestaram contra a situação histórica de desmando, mas também apresentaram solicitações concretas para melhorar a vida da população.
Inicialmente, os trabalhos estavam previstos para começar com palestras das autoridades, porém o presidente do colegiado, Bira Corôa (PT), captando o espirito do evento, decidiu inverter a pauta e sugeriu que os quilombolas falassem sobre suas demandas. E assim foi feito.
Primeiro a falar, Edson Falcão, vice-presidente da associação dos quilombolas, relatou minuciosamente os problemas da comunidade. "Nós temos questões das mais diversas ordens. Aqui, sofremos com muitas coisas, mas as questões principais estão relacionadas aos pedidos de reintegração de posse, já que o Incra nunca demarca definitivamente nossas terras; e à questão da violência. O posto policial foi inaugurado só de enfeite. Até hoje nunca funcionou."
Antes de passar a palavra ao próximo orador, Bira Corôa fez questão de lembrar que a audiência de ontem era consequência exatamente das demandas que a população já havia apresentado em uma reunião realizada no local há pouco mais de quatro meses, em meados de maio.

NECESSIDADES

E a lista das reivindicações não parou. Secretário da comunidade quilombola, Florisvaldo Conceição disse que um dos objetivos da audiência era exatamente que os poderes constituídos tomassem conhecimento dos pleitos da comunidade e apresentassem soluções. Assim como Edson, ele também destacou o problema da segurança, dando ênfase aos dois homicídios que ocorreram na região sem que, até o momento, "nenhuma providência fosse tomada".
Representante da comunidade quilombola do São Francisco, Crispim Rabicó foi mais além. "Antes reivindicávamos uma estrada, que já começou a ser construída. Porém, rodovia sem manutenção e segurança não adianta de nada."
Autodenominando-se fiscal do movimento dos quilombolas, Benevaldo Santos fez em seguida um discurso dos mais inflamados, denunciando a ação dos fazendeiros da região. "Eles não estão respeitando os quilombolas, ficam escorraçando a gente de nossos territórios. Não viemos aqui para fazer conflitos, mas sim para resgatar nossos direitos."
Outras questões ligadas à educação, saúde e até o acesso à informação foram tratados por alguns oradores antes da explanação das autoridades.

PARCERIA

Os pronunciamentos dos representantes governamentais seguiram duas linhas. Primeiro, explicaram as ações já desenvolvidas e depois se colocaram à disposição para pôr em prática, de modo efetivo, parceria com a comunidade.
Rosângela Araújo, representante da Secretaria da Educação do Estado da Bahia, falou sobre o esforço da SEC para promover a igualdade racial. "Temos a compreensão de que o racismo se reproduz na qualidade de ensino e estamos trabalhando para mudar a situação atual."
Na sequência, Samuel Conceição Leite, representante da EDBA, destacou que a empresa tem muito a oferecer aos quilombolas. "Temos estrutura em toda a Bahia e estamos à disposição para ajudar no que for possível para trazer os benefícios para esta e outras regiões." Já Alberto Pantaleão, da Bahiapesca, confessou que o órgão "tem poucos recursos, mas muita disposição para lutar por ações concretas que melhorem a vida do povo". O representante da Secretaria da Saúde, Valdemar Santos, relatou brevemente as ações do governo no setor, especialmente com medidas voltadas para "especificidade étnico-racial".
O discurso mais aguardado foi o do representante da segurança pública. E o coronel Hélio Alves, comandante da Regional Leste, não decepcionou. "Nós respeitamos a hierarquia, estamos subordinados a ela, no entanto jamais nos curvaremos de forma cega a interesses que contrariem o desejo do povo. Estamos aqui para servir à população." E, para mostrar que seu pronunciamento não era apenas retórico, ele repassou para todos os presentes o número de seu celular e disse que podiam ligar sempre que necessário. E acrescentou: "Se algum policial agir de forma arbitrária ou truculenta, desrespeitando a cidadania, saibam que ele não tem o apoio da corporação."

RELATÓRIO

Depois de mais de duas horas de debates, o presidente Bira Corôa destacou que os trabalhos haviam sido extremamente produtivos e que não iam parar ali. "Vamos produzir um relatório e encaminhar as reivindicações para os outros órgãos que não estiveram aqui."
O petista informou que audiências para tratar das demandas das comunidades quilombolas e as ações do governo ocorrerão até dezembro nos municípios de Cairu, Piripá, Bom Jesus da Lapa e Esplanada.



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